Você pode estar espalhando nematoides pela própria fazenda

Maquinaria agrícola – Wikipédia, a enciclopédia livre

Autor(a): Diro Hokari

Você pode estar espalhando nematoides pela fazenda sem perceber. O problema não acontece porque esses organismos percorrem grandes distâncias sozinhos. Pelo contrário, a movimentação própria dos fitonematoides no solo tende a ser bastante limitada. O risco aumenta quando solo contaminado, água, máquinas, implementos, botas ou materiais vegetais transportam esses organismos de um ponto para outro.

Isso significa que uma infestação inicialmente concentrada em uma reboleira pode, ao longo do tempo, alcançar outras partes do talhão ou até áreas que antes não apresentavam o problema.

Segundo Ferraz e Brown, a intervenção humana representa um dos principais caminhos para a dispersão dos fitonematoides a curtas e longas distâncias.

Como você pode estar espalhando nematoides pela fazenda?

A maioria dos nematoides que ataca raízes não possui mecanismos eficientes para percorrer rapidamente grandes distâncias.

Sozinhos, eles se movimentam no filme de água presente entre as partículas do solo. Dessa forma, seu deslocamento durante uma safra pode ficar restrito a poucos centímetros.

Entretanto, tudo muda quando uma máquina entra em uma área infestada, acumula solo úmido nos pneus ou implementos e depois segue para outro talhão.

Nesse caso, o solo viaja junto.

E, com ele, podem viajar juvenis, ovos, cistos e outros estádios capazes de iniciar uma nova infestação.

Por isso, muitas vezes o maior responsável pela expansão do problema dentro da propriedade não é o próprio movimento do nematoide, mas as operações realizadas no campo.

Máquinas e implementos podem carregar solo contaminado

O preparo e o trânsito de máquinas merecem atenção principalmente quando o solo está úmido.

Arações, gradagens e outras operações que movimentam intensamente o solo podem contribuir para ampliar uma infestação já existente. Assim, uma reboleira localizada pode servir como ponto inicial para a distribuição do nematoide em outras partes da área.

Além disso, pneus, discos, hastes e outros componentes dos equipamentos podem acumular partículas de solo.

Quando a máquina sai de uma área infestada e entra diretamente em outra, esse material pode cair no novo local.

Portanto, a sequência das operações também importa.

Sempre que possível, áreas sem histórico de nematoides devem receber as operações antes dos talhões infestados. Depois disso, a limpeza dos equipamentos ajuda a reduzir o transporte de solo entre áreas.

A chuva também movimenta o problema

Nem toda dispersão depende diretamente de máquinas.

Chuvas intensas podem provocar enxurradas e erosão superficial. Consequentemente, partículas de solo de uma área mais alta podem chegar às partes mais baixas do terreno.

Se esse solo estiver contaminado, os nematoides também podem acompanhar esse movimento.

A literatura destaca que as enxurradas representam um importante agente de dispersão dentro das lavouras, especialmente em terrenos com declividade. Em algumas situações, o fluxo superficial provocado pela irrigação também pode contribuir para essa movimentação.

Por isso, práticas que reduzem erosão e movimentação superficial do solo também ganham importância dentro do manejo.

Até uma bota pode transportar nematoides

O volume de solo parece pequeno, mas não deve ser ignorado.

Em dias chuvosos, botas e outros equipamentos utilizados pelos trabalhadores podem carregar solo aderido entre diferentes áreas da propriedade.

Ferraz e Brown citam justamente as botas como um possível meio de disseminação de fitonematoides a curta distância.

O mesmo raciocínio vale para ferramentas e pequenos equipamentos que entram em contato direto com o solo.

Portanto, higiene e organização operacional não servem apenas para manter equipamentos limpos. Elas também podem contribuir para evitar que um problema localizado ganhe novos espaços.

Mudas contaminadas podem levar o problema para outra área

Em cultivos perenes, a atenção precisa ser ainda maior com as mudas.

Quando o viveiro utiliza solo de uma área infestada ou quando as mudas já carregam nematoides nas raízes, o plantio pode introduzir o organismo diretamente em locais anteriormente livres do problema.

Esse tipo de dispersão tem enorme importância histórica.

O livro Nematologia de Plantas: fundamentos e importância cita o caso de Radopholus similis, o nematoide cavernícola da bananeira. A espécie alcançou diferentes regiões produtoras principalmente por meio do transporte de mudas contaminadas.

Assim, utilizar material de propagação com boa origem e atenção fitossanitária representa uma medida importante de prevenção.

As reboleiras podem revelar como o problema está avançando

A distribuição de nematoides dentro de uma lavoura geralmente não ocorre de maneira uniforme.

Em vez disso, as populações costumam aparecer de forma agregada, formando manchas ou reboleiras.

Com o tempo, entretanto, a movimentação de solo pode ampliar essas áreas.

Por isso, acompanhar a localização das reboleiras ao longo das safras ajuda a entender a evolução do problema.

Se uma mancha aumenta continuamente na direção das operações agrícolas, por exemplo, vale investigar a participação das máquinas e do transporte de solo nessa expansão.

Além disso, a análise de solo e raízes ajuda a identificar quais espécies estão presentes e onde suas populações estão mais concentradas.

Como reduzir a dispersão dentro da propriedade?

O primeiro passo é conhecer quais áreas apresentam infestação.

Depois disso, o produtor pode organizar melhor o trânsito de máquinas e pessoas dentro da fazenda. Sempre que possível, operações devem começar pelas áreas sem histórico do problema e terminar nos locais infestados.

Além disso, retirar o excesso de solo dos equipamentos antes de entrar em outro talhão reduz uma das principais vias de transporte.

Outro cuidado importante envolve a origem de mudas e materiais vegetativos. Nesse caso, utilizar material sem contaminação reduz o risco de introduzir o problema em novas áreas.

Da mesma forma, práticas que diminuem erosão e enxurradas ajudam a limitar o transporte superficial de solo.

Evitar a dispersão pode ser mais fácil do que lidar com uma nova área infestada

Quando um nematoide já está estabelecido no solo, o manejo tende a exigir várias estratégias ao longo das safras.

Por isso, impedir que ele chegue a novos talhões pode representar uma das decisões mais importantes dentro da propriedade.

O ponto central é simples: os nematoides não precisam atravessar a fazenda sozinhos.

Máquinas, água, solo aderido, botas e mudas podem fazer esse transporte.

Portanto, conhecer as áreas infestadas, reduzir a movimentação desnecessária de solo e organizar as operações ajuda a evitar que um problema localizado se transforme em um problema de toda a fazenda.

Fonte: Ferraz, L. C. C. B.; Brown, D. J. F. Nematologia de Plantas: fundamentos e importância. Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016.

WhatsApp
Telegram
LinkedIn
Facebook
Twitter

Você também pode gostar