
Autor(a): Diro Hokari
Sim, Bacillus spp. e Trichoderma podem trabalhar juntos. Entretanto, essa combinação não funciona automaticamente apenas porque os dois microrganismos são considerados benéficos.
O resultado depende das espécies, das cepas, das formulações e das condições encontradas no solo. Algumas combinações apresentam ação complementar e ampliam a proteção das raízes. Outras, porém, entram em competição e podem reduzir o desenvolvimento de um dos agentes.
Por isso, a pergunta mais importante não é apenas se Bacillus spp. e Trichoderma podem dividir o mesmo ambiente. Também é necessário entender se as cepas escolhidas conseguem permanecer ativas sem prejudicar uma à outra.
Cada microrganismo atua de uma maneira
Embora ocupem a rizosfera, Bacillus e Trichoderma pertencem a grupos diferentes. Bacillus é uma bactéria, enquanto Trichoderma é um fungo.
Algumas cepas de Bacillus colonizam a superfície das raízes, formam biofilmes e produzem compostos antimicrobianos. Além disso, podem competir por nutrientes, liberar enzimas e estimular mecanismos de defesa da planta.
Já Trichoderma coloniza as raízes e o solo por meio de suas hifas. Dependendo da cepa, o fungo compete por espaço e nutrientes, produz metabólitos, libera enzimas e pode parasitar estruturas de outros fungos.
Portanto, quando a associação apresenta compatibilidade, os dois organismos podem reunir mecanismos diferentes no mesmo manejo. Um pode limitar o patógeno por antibiose e ocupação da raiz, enquanto o outro atua por competição, produção de enzimas e micoparasitismo. Ambos também podem estimular as defesas vegetais.
A combinação pode ampliar a proteção das raízes
Quando as cepas atuam de forma complementar, a associação pode ocupar diferentes espaços próximos ao sistema radicular.
A bactéria se estabelece principalmente sobre a superfície da raiz e em regiões ricas em exsudatos. Enquanto isso, o fungo desenvolve hifas que exploram o solo e entram em contato com diferentes pontos da raiz.
Dessa forma, o consórcio pode ampliar a área biologicamente ocupada. Além disso, cada organismo produz conjuntos diferentes de enzimas e metabólitos. Isso aumenta a diversidade de mecanismos disponíveis contra os patógenos.
Em um estudo com tomateiro, consórcios formados por microrganismos cuidadosamente selecionados, incluindo espécies de Bacillus e Trichoderma, controlaram patógenos radiculares e foliares. Os pesquisadores destacaram que o resultado dependeu da seleção de agentes compatíveis e bem caracterizados.
O contato entre Bacillus e Trichoderma pode mudar seu metabolismo
A relação entre esses organismos não se resume à soma de duas aplicações. Quando eles entram em contato, podem alterar o próprio metabolismo.
Uma pesquisa avaliou o cultivo conjunto de Trichoderma asperellum e Bacillus amyloliquefaciens. A interação aumentou a expressão de genes relacionados ao micoparasitismo, à produção de enzimas e ao crescimento vegetal. Além disso, o cultivo conjunto originou compostos que não apareceram quando cada microrganismo cresceu isoladamente.
Nesse experimento, a associação também melhorou o desenvolvimento do trigo e a proteção contra Fusarium graminearum. Contudo, nem todos os genes ligados aos metabólitos de Bacillus aumentaram sua atividade. Alguns apresentaram redução, o que demonstra a complexidade dessa interação.
Assim, uma combinação pode estimular determinadas funções e reduzir outras. Por esse motivo, o comportamento precisa ser analisado para cada conjunto de cepas.
Trabalhar juntos não significa obter sempre um resultado superior
Em alguns casos, a aplicação conjunta melhora o crescimento, a colonização radicular ou a proteção contra doenças. Porém, em outros, a associação apresenta desempenho semelhante ou inferior ao uso individual.
Em soja, a aplicação combinada de Bacillus subtilis e Trichoderma harzianum favoreceu o crescimento vegetal e grupos microbianos associados às plantas. Os tratamentos também alteraram a comunidade presente nas raízes e no solo.
Entretanto, um estudo com hortaliças cultivadas em sistemas hidropônicos encontrou respostas diferentes. Em algumas avaliações, o tratamento apenas com Bacillus apresentou melhores resultados para a parte aérea. Em outras, tratamentos contendo Trichoderma favoreceram a massa radicular. A combinação não superou sempre os agentes utilizados de forma individual.
Portanto, mais microrganismos não significam necessariamente maior eficiência.
Algumas cepas podem competir entre si
Esse é um dos principais cuidados ao combinar Bacillus spp. e Trichoderma.
Muitas cepas de Bacillus produzem compostos com ação antifúngica. Essa característica ajuda no controle de patógenos, mas também pode afetar fungos benéficos quando não existe compatibilidade.
Da mesma forma, Trichoderma produz metabólitos e enzimas que interferem no desenvolvimento de outros microrganismos. Consequentemente, a associação pode gerar competição por nutrientes, espaço e fontes de carbono.
Uma revisão recente relata o caso de uma cepa de Bacillus que estimulava o crescimento vegetal quando usada sozinha, mas inibia o desenvolvimento de Trichoderma durante a coinoculação. Nesse caso, os pesquisadores encontraram melhor desempenho com a aplicação individual.
Isso reforça que a compatibilidade precisa ser avaliada no nível da cepa, e não apenas pelo nome do gênero ou da espécie.
Posso misturar os dois na mesma aplicação?
Nem sempre.
Mesmo quando os dois microrganismos podem participar do mesmo programa de manejo, isso não significa que devam permanecer juntos no tanque. A formulação, o pH da calda, a concentração de sais, o tempo de contato e os demais insumos presentes podem alterar a germinação dos conídios e a sobrevivência bacteriana.
Além disso, uma formulação pode conter substâncias que afetam o outro agente. Portanto, a mistura não deve ser definida apenas pela ausência de sinais visíveis, como separação da calda ou formação de grumos.
A recomendação de uso, a compatibilidade entre as formulações e a orientação técnica precisam ser verificadas antes da mistura. Quando não há informação segura, aplicações separadas podem reduzir o contato direto entre os agentes e preservar a viabilidade de cada um.
O momento da aplicação também interfere
A associação pode funcionar mesmo quando os agentes não são aplicados exatamente no mesmo instante.
Por exemplo, uma aplicação pode favorecer a colonização inicial das raízes, enquanto outra pode reforçar a atividade biológica em uma fase posterior. Além disso, o posicionamento pode variar entre tratamento de sementes, aplicação no sulco, mudas, substrato ou solo.
Contudo, a estratégia depende da cultura, do alvo e das características dos microrganismos. Aplicações sem planejamento podem colocar os dois agentes em competição direta antes que alcancem a raiz.
Assim, o objetivo não deve ser apenas colocar mais organismos na área. O manejo precisa criar condições para que cada agente desempenhe sua função.
O solo influencia a associação
Mesmo uma combinação comprovadamente compatível pode perder eficiência quando encontra condições desfavoráveis.
Temperatura, umidade, pH, matéria orgânica, aeração e textura interferem na atividade dos microrganismos. Além disso, a microbiota nativa do solo disputa espaço e recursos com os organismos introduzidos.
Por isso, áreas compactadas, encharcadas ou com baixa atividade radicular podem limitar a colonização. Da mesma maneira, períodos prolongados de seca reduzem a atividade metabólica e dificultam o estabelecimento próximo às raízes.
O manejo físico e biológico do solo precisa acompanhar o uso dos agentes microbiológicos. Afinal, a eficiência não depende apenas do que foi aplicado, mas também do ambiente que recebe a aplicação.
A combinação deve fazer parte de um manejo integrado
Bacillus spp. e Trichoderma podem ampliar a diversidade de mecanismos contra doenças de solo. No entanto, eles não corrigem sozinhos problemas como compactação, drenagem deficiente, resíduos infectados ou repetição de culturas hospedeiras.
Primeiro, o patógeno precisa ser identificado. Em seguida, o manejo deve integrar sementes e mudas sadias, rotação de culturas, proteção das raízes, melhoria da estrutura do solo e uso correto dos agentes biológicos.
Em resumo, Bacillus spp. e Trichoderma podem trabalhar juntos, mas a compatibilidade entre cepas define grande parte do resultado. Quando a associação foi testada e bem posicionada, os dois agentes podem complementar mecanismos e ampliar a proteção das raízes. Porém, uma mistura aleatória pode gerar competição e reduzir a eficiência do manejo.
Fontes:
Karuppiah et al. Co-cultivation of Trichoderma asperellum GDFS1009 and Bacillus amyloliquefaciens 1841 Causes Differential Gene Expression and Improvement in the Wheat Growth and Biocontrol Activity. 2019.
Minchev et al. Microbial Consortia for Effective Biocontrol of Root and Foliar Diseases in Tomato. 2021.
Rigobelo et al. Effects of Trichoderma harzianum and Bacillus subtilis on the root and soil microbiomes of soybean. 2024.
Santoyo et al. Trichoderma and Bacillus multifunctional allies for plant growth and health. 2024.
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Link externo de autoridade:
– Embrapa Café — Nematoides em cafeeiros