Autor(a): Diro Hokari
Quando uma bactéria do gênero Bacillus entra no manejo de nematoides, ela não percorre toda a área eliminando os parasitas que encontra. O processo é mais complexo e depende da interação entre a cepa, a raiz, o nematoide e as condições do solo.
Na prática, algumas cepas conseguem colonizar a rizosfera, produzir substâncias que afetam ovos e juvenis, estimular as defesas da planta e favorecer o desenvolvimento radicular. Porém, nem todas apresentam os mesmos mecanismos ou alcançam o mesmo resultado.
Por isso, compreender o que realmente acontece no solo evita uma expectativa errada: Bacillus spp. podem reduzir a pressão dos nematoides, mas não eliminam sozinhos uma infestação já estabelecida.
Tudo começa perto da raiz
A região mais importante para a atuação de Bacillus spp. é a rizosfera, ou seja, a faixa de solo diretamente influenciada pelas raízes.
Nesse ambiente, a planta libera açúcares, aminoácidos, ácidos orgânicos e outros compostos que alimentam diferentes microrganismos. Algumas cepas de Bacillus aproveitam esses recursos, multiplicam-se e ocupam a superfície radicular.
Essa colonização aproxima a bactéria do ponto onde muitos nematoides iniciam o parasitismo. Os juvenis infectantes, como o J2 de Meloidogyne, deslocam-se pelo filme de água do solo, localizam a raiz e procuram um ponto para penetrar.
Portanto, quando Bacillus coloniza a região radicular com antecedência, a bactéria pode interferir nessa aproximação e diminuir as chances de infecção.
Algumas cepas atuam diretamente sobre os juvenis
Determinadas cepas produzem metabólitos com atividade nematicida. Essas substâncias podem reduzir a mobilidade dos juvenis, alterar funções fisiológicas e, em alguns casos, causar sua morte.
Pesquisas com Bacillus firmus identificaram proteases capazes de degradar componentes da cutícula dos nematoides. Como a cutícula protege o corpo do organismo e mantém sua integridade, danos nessa estrutura comprometem sua sobrevivência.
Além disso, estudos com Bacillus velezensis observaram que caldos de fermentação e compostos liberados pela bactéria aumentaram a mortalidade de juvenis de segundo estádio de Meloidogyne incognita. Entretanto, esse efeito variou conforme a cepa, a concentração e o tempo de exposição.
Isso mostra um ponto importante: a ação não pertence automaticamente ao gênero inteiro. O resultado depende da cepa e dos compostos que ela consegue produzir.
Compostos voláteis podem alterar a movimentação
Algumas cepas também liberam compostos orgânicos voláteis. Como essas moléculas se espalham pelo espaço poroso do solo, podem alcançar juvenis que ainda não entraram em contato direto com a bactéria.
Em um estudo com Bacillus velezensis, os compostos voláteis reduziram inicialmente a movimentação dos juvenis de Meloidogyne incognita. Depois de maior tempo de exposição, os pesquisadores observaram alta mortalidade. A bactéria também alterou a expressão de genes relacionados à locomoção, percepção química e atividade fisiológica do nematoide.
Ainda assim, o solo apresenta condições muito diferentes de uma placa de laboratório. Textura, umidade, temperatura, porosidade e matéria orgânica interferem na dispersão e na concentração desses compostos.
Por isso, uma elevada mortalidade observada em laboratório não garante o mesmo nível de controle no campo.
Bacillus spp. também podem afetar a eclosão dos ovos
Outra frente de atuação envolve os ovos. Algumas cepas reduzem a eclosão, o que limita a quantidade de juvenis infectantes disponíveis para atacar as raízes.
Em ensaios com Bacillus velezensis, tanto a cultura bacteriana quanto o líquido sem células reduziram a eclosão de ovos de Meloidogyne incognita. Esse resultado indicou que parte da ação ocorreu por substâncias liberadas pela bactéria no ambiente.
No entanto, os ovos ficam protegidos por camadas resistentes e, no caso dos nematoides de galhas, permanecem agrupados em uma matriz gelatinosa. Portanto, a bactéria precisa alcançar esses locais e manter atividade suficiente para interferir no desenvolvimento do nematoide.
A bactéria pode preparar a defesa da planta
O controle não ocorre apenas por contato direto. Algumas cepas ativam mecanismos de defesa dentro da própria planta.
Nesse processo, a raiz reconhece determinados sinais produzidos pela bactéria e entra em estado de alerta. Assim, quando o nematoide tenta penetrar ou formar seu sítio de alimentação, a planta responde com maior rapidez.
Estudos com algodão mostraram que Bacillus amyloliquefaciens e Bacillus firmus reduziram a população de Meloidogyne incognita mesmo quando a bactéria permaneceu em uma parte separada do sistema radicular. Os resultados indicaram a participação de rotas de defesa relacionadas aos ácidos jasmônico e salicílico.
Da mesma forma, uma pesquisa com Bacillus velezensis identificou aumento na produção de ácido jasmônico e na expressão de genes de defesa em raízes atacadas por nematoide de cisto.
Portanto, a bactéria não precisa necessariamente matar cada nematoide. Em alguns casos, ela ajuda a raiz a dificultar a penetração, o estabelecimento e a reprodução do parasita.
Fortalecer a raiz ajuda, mas não significa controle
Algumas cepas de Bacillus estimulam o crescimento radicular, favorecem a disponibilidade de nutrientes ou ajudam a planta a enfrentar condições de estresse.
Com uma raiz mais desenvolvida, a planta pode explorar melhor o solo e suportar parte dos danos causados pelos nematoides. Porém, tolerar o ataque não significa reduzir a população.
Esse cuidado é essencial na avaliação do manejo. Uma planta mais vigorosa pode esconder temporariamente os sintomas, enquanto o nematoide continua se reproduzindo nas raízes.
Por isso, além de observar altura, massa vegetal e produtividade, é necessário avaliar número de juvenis, ovos, galhas, lesões ou cistos. A análise nematológica mostra se o manejo realmente interrompeu o ciclo do parasita.
Por que os resultados variam entre áreas?
O desempenho de Bacillus spp. depende da capacidade de a bactéria sobreviver, multiplicar-se e permanecer próxima às raízes.
Solos muito secos limitam a atividade microbiana. Por outro lado, o encharcamento reduz a aeração e pode prejudicar cepas que precisam de oxigênio. Além disso, pH, temperatura, matéria orgânica, textura e compatibilidade com outros insumos alteram o estabelecimento da bactéria.
O momento da aplicação também importa. Quando a colonização ocorre antes da chegada do juvenil à raiz, a bactéria encontra mais oportunidade para agir. Entretanto, quando o nematoide já formou seu sítio de alimentação dentro do tecido, o manejo se torna mais difícil.
A literatura sobre manejo biológico destaca antibiose, competição, promoção do crescimento e indução de resistência entre os possíveis mecanismos das rizobactérias. Também aponta Bacillus entre os gêneros mais estudados contra fitonematoides.
Bacillus spp. precisam fazer parte de um sistema
O manejo não deve depender apenas da aplicação de uma bactéria. Primeiro, a análise de solo e raízes deve identificar o gênero e, quando possível, a espécie presente. Depois, o produtor precisa considerar a densidade populacional e o histórico da área.
Além disso, o sistema deve integrar rotação com plantas não hospedeiras, cultivares resistentes ou tolerantes, plantas de cobertura adequadas, controle de hospedeiros alternativos, limpeza de máquinas e proteção do sistema radicular.
Em síntese, Bacillus spp. podem afetar ovos e juvenis, produzir enzimas e metabólitos, alterar o comportamento dos nematoides e ativar as defesas vegetais. Porém, o resultado aparece com maior consistência quando a bactéria encontra condições para colonizar a raiz e atua dentro de um manejo integrado.
Fontes:
Ferraz, L. C. C. B.; Brown, D. J. F. Nematologia de plantas: fundamentos e importância. 2016.
Gattoni, K. M.; Park, S. W.; Lawrence, K. S. Evaluation of the mechanism of action of Bacillus spp. to manage Meloidogyne incognita. 2023.
Tian, X. et al. The Biocontrol Functions of Bacillus velezensis Strain Bv-25 Against Meloidogyne incognita. 2022.
Yang, Y. et al. Research on the mechanism of Bacillus velezensis A-27 in enhancing resistance to soybean cyst nematode. 2024.
Geng, C. et al. A novel serine protease from Bacillus firmus with nematicidal activity. 2016.
🔗 Conheça o Kaizen — condicionador biológico Solusolo
🔗 Guia completo: Nematoide no Solo
🔗 Veja: Controle biológico de nematoide
Link externo de autoridade:
– Embrapa Café — Nematoides em cafeeiros