Autor(a): Diro Hokari
Nematoides sobrevivem sem cultura no campo? Sim. Mesmo quando uma lavoura é retirada da área, algumas espécies conseguem permanecer no solo por meses ou até anos. Para isso, utilizam ovos, cistos, restos vegetais e mecanismos de dormência que ajudam a atravessar períodos sem uma planta hospedeira disponível.
Isso acontece porque os nematoides não dependem apenas da presença imediata de raízes vivas para permanecer no ambiente. Algumas espécies conseguem reduzir drasticamente sua atividade metabólica. Outras permanecem protegidas dentro de ovos, restos vegetais ou estruturas resistentes.
Por isso, entender como nematoides sobrevivem sem cultura é importante antes de planejar a próxima safra.
Como os nematoides sobrevivem sem cultura no campo?
Os nematoides são organismos dependentes de água. Entretanto, mesmo durante períodos secos, pequenas quantidades de umidade permanecem entre as partículas do solo.
Além disso, algumas espécies desenvolveram mecanismos capazes de reduzir a perda de água do próprio corpo. Dessa maneira, conseguem atravessar condições ambientais desfavoráveis até que a situação volte a permitir sua atividade.
Segundo a obra Nematologia de Plantas: fundamentos e importância, muitos fitonematoides que atacam culturas anuais precisam sobreviver no solo durante períodos sem plantas hospedeiras. Para isso, mecanismos de dormência podem ser utilizados.
Entre eles estão a quiescência, a criptobiose e a diapausa.
Nematoides podem praticamente “desligar” o metabolismo
Quando as condições ambientais ficam desfavoráveis, alguns nematoides reduzem suas atividades.
Esse estado é conhecido como quiescência.
Se a condição adversa continua, o organismo pode entrar em um estado ainda mais profundo, chamado criptobiose. Nesse momento, sua atividade metabólica fica extremamente reduzida.
Assim, o nematoide pode permanecer praticamente inativo enquanto espera melhores condições.
Quando a umidade, a temperatura ou o oxigênio voltam aos níveis adequados, sua atividade pode ser retomada.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que uma área aparentemente sem sintomas pode voltar a apresentar problemas depois da implantação de uma cultura suscetível.
A seca não necessariamente elimina os nematoides
A falta de água pode reduzir a atividade dos nematoides. No entanto, algumas espécies conseguem suportar períodos prolongados de desidratação.
Esse mecanismo recebe o nome de anidrobiose.
Há registros de espécies capazes de permanecer nesse estado por meses ou até anos, dependendo do nematoide e da estrutura utilizada para sobrevivência.
Um exemplo apresentado na literatura é Scutellonema cavenessi. Em condições africanas de seca prolongada, espécimes dessa espécie conseguiram permanecer no solo sem cultivo por até nove meses. Posteriormente, com o retorno das chuvas, sua atividade foi retomada.
Portanto, solo seco não significa necessariamente solo livre de nematoides.
Os cistos são verdadeiras estruturas de sobrevivência
Entre as estratégias mais eficientes estão os cistos produzidos por nematoides dos gêneros Heterodera e Globodera.
Nesse caso, grande parte dos ovos permanece dentro do corpo da fêmea. Após sua morte, a parede corporal sofre modificações e se torna mais resistente.
Assim, o corpo da fêmea passa a funcionar como uma estrutura protetora cheia de ovos.
Esses cistos podem permanecer no solo durante meses ou anos, protegendo os ovos contra condições ambientais desfavoráveis. Entre os exemplos está Heterodera glycines, conhecido como nematoide de cisto da soja.
Além disso, a eclosão dos juvenis pode depender de estímulos específicos associados à presença da planta hospedeira.
Ou seja, parte da população pode permanecer no solo esperando justamente o retorno de uma cultura favorável.
Restos de plantas também ajudam na sobrevivência
Nem todos os nematoides permanecem apenas livres no solo.
Ovos e juvenis podem permanecer protegidos em tecidos vegetais, raízes ou outros resíduos da cultura anterior.
Por isso, o período entre duas safras não representa obrigatoriamente uma interrupção completa do ciclo.
Além disso, plantas daninhas ou culturas utilizadas durante a entressafra podem funcionar como hospedeiras. Nesse cenário, a população não apenas sobrevive, mas também pode continuar se multiplicando.
Consequentemente, a escolha das espécies utilizadas na rotação precisa considerar quais nematoides estão presentes na área.
Então deixar o solo sem cultura resolve?
Na maioria das situações, não deve ser considerado uma solução isolada.
O período sem hospedeiro pode reduzir a população de determinadas espécies. Entretanto, sua eficiência depende do nematoide presente, do tempo sem plantas suscetíveis, das condições ambientais e da existência de hospedeiros alternativos.
Além disso, ovos, cistos e estados de dormência podem prolongar bastante a permanência do problema.
Por isso, o manejo deve começar pelo diagnóstico correto da área.
A análise nematológica permite identificar quais espécies estão presentes e estimar suas populações. Em seguida, rotação de culturas, escolha de plantas pouco favoráveis ao nematoide, manejo de plantas daninhas e outras práticas podem ser combinadas.
O problema pode estar esperando a próxima cultura
A ausência de sintomas durante a entressafra pode transmitir uma falsa sensação de segurança.
Porém, o nematoide pode continuar presente no solo, apenas com sua atividade reduzida.
Assim que uma cultura suscetível volta à área e as condições de temperatura e umidade se tornam favoráveis, juvenis podem voltar à atividade, localizar raízes e reiniciar o parasitismo.
Portanto, o momento de pensar no manejo não começa quando as reboleiras aparecem. Ele começa antes do plantio, entendendo quais espécies permanecem na área e quais estratégias podem interromper sua multiplicação.