Por que as baixadas podem concentrar mais nematoides depois de chuvas fortes?

Nematoide - Site Ageitec - Portal Embrapa

Autor(a): Diro Hokari

Depois de uma chuva forte, a água não é a única coisa que pode mudar de lugar dentro da lavoura.

Solo, restos vegetais e organismos presentes naquele ambiente também podem ser transportados. Entre eles, estão os fitonematoides.

Por isso, uma área que apresentava o problema principalmente nas partes mais altas pode, ao longo do tempo, apresentar populações também em regiões mais baixas do terreno.

Entretanto, isso não significa que os nematoides estejam nadando grandes distâncias pela lavoura. O processo ocorre de outra forma.

O nematoide sozinho não vai muito longe

A capacidade de deslocamento dos fitonematoides por conta própria é bastante limitada.

Ferraz e Brown explicam que, se dependessem apenas de seus próprios movimentos, esses organismos provavelmente percorreriam apenas alguns centímetros durante uma safra.

Porém, existe um detalhe importante.

O solo pode se movimentar.

E quando uma partícula de solo contaminada muda de lugar, nematoides presentes nela também podem acompanhar esse deslocamento.

É justamente aí que entram as chuvas fortes.

A enxurrada pode carregar solo contaminado

Quando a intensidade da chuva supera a capacidade de infiltração do solo, parte da água começa a escoar pela superfície.

Consequentemente, esse fluxo pode provocar erosão e transportar partículas de terra para outros pontos da lavoura.

Se uma área já possui nematoides, ovos ou cistos, parte desse material pode seguir junto com o solo transportado.

Assim, a chuva não cria uma infestação.

Ela pode, porém, ajudar uma infestação existente a alcançar outros locais.

A Embrapa também reconhece a erosão hídrica e a água da chuva entre os meios capazes de favorecer a dispersão dos nematoides.

Por que as baixadas merecem atenção?

A declividade muda a direção desse transporte.

Durante uma enxurrada, água e solo tendem a seguir das regiões mais altas para os pontos mais baixos do terreno.

Dessa forma, materiais provenientes de uma área infestada podem chegar às baixadas.

Ferraz e Brown destacam justamente esse processo e apontam que níveis populacionais mais elevados podem ocorrer nessas regiões em determinadas situações.

Portanto, quando aparecem novas reboleiras, observar apenas as plantas pode não contar toda a história.

O relevo, o caminho percorrido pela água e o histórico de erosão também ajudam a entender como o problema está distribuído.

Nematoide espalhado não significa nematoide multiplicado

Existe uma diferença importante entre dispersão e multiplicação.

A enxurrada pode levar o nematoide até outro ponto da propriedade. Entretanto, isso não garante que sua população aumentará naquele local.

Para isso acontecer, vários fatores entram em cena.

A presença de uma planta hospedeira adequada é um dos principais. Além disso, temperatura, umidade, características do solo e espécie de nematoide influenciam sua sobrevivência e reprodução.

Ou seja, a água pode transportar o problema. Depois disso, o ambiente encontrado determinará parte do que acontece.

O solo também interfere nesse processo

Um solo com baixa infiltração tende a gerar maior escoamento superficial durante eventos intensos de chuva.

Por outro lado, manter o solo protegido e reduzir sua movimentação ajuda a diminuir as perdas provocadas pela erosão.

Nesse sentido, cobertura do solo, manejo adequado do tráfego de máquinas e práticas voltadas à conservação da estrutura merecem atenção.

Além de conservar água e solo, essas medidas podem limitar uma importante forma de transporte dos fitonematoides dentro da propriedade.

A máquina pode continuar o trabalho da chuva

O risco não termina quando a chuva passa.

Depois de entrar em uma região úmida e infestada, pneus, implementos e equipamentos podem acumular solo.

Posteriormente, esse material pode ser levado para outros pontos do talhão.

Por isso, a movimentação de máquinas também precisa entrar na análise, principalmente quando já existem áreas conhecidas com altas populações de nematoides.

Em outras palavras, a chuva pode movimentar o solo primeiro. Depois, a própria operação agrícola pode ampliar esse deslocamento.

Depois da chuva, vale olhar para onde a água foi

As chuvas fortes não fazem os nematoides aparecerem do nada.

Porém, elas podem modificar a distribuição de uma população que já existia na área.

Por isso, depois de episódios intensos de chuva, vale observar o caminho das enxurradas, regiões de acúmulo de sedimentos, baixadas e novas reboleiras.

Além disso, quando houver suspeita, a análise nematológica de solo e raízes ajuda a identificar quais espécies estão presentes e a entender melhor sua distribuição.

No fim das contas, acompanhar nematoides não significa olhar apenas para a planta.

Também significa entender como o solo se movimenta dentro da lavoura.

Link interno sugerido

Você pode estar espalhando nematoides pela própria fazenda

Link externo

Embrapa: Nematoides e sua dispersão no solo

Fontes

FERRAZ, L. C. C. B.; BROWN, D. J. F. Nematologia de Plantas: fundamentos e importância. Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016.

EMBRAPA. Nematoides: biologia do solo e Sistema Plantio Direto.

EMBRAPA. Perguntas e respostas sobre nematoides: meios de disseminação.

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