
Autor(a): Diro Hokari
Quando uma palhada desaparece da superfície, ela não simplesmente “sumiu”.
Na verdade, alguém trabalhou nela.
E, muitas vezes, boa parte desse trabalho começou com os fungos.
Folhas, raízes mortas, restos de cultura e outros materiais vegetais possuem compostos que podem ser difíceis de quebrar. Por isso, enquanto alguns se decompõem rapidamente, outros permanecem no solo por muito mais tempo.
Justamente por essa razão, determinados fungos ganham importância na decomposição dos resíduos mais complexos.
Eles funcionam como parte da equipe que desmonta a matéria orgânica peça por peça.
Como acontece a decomposição da matéria orgânica?
Quando um resíduo vegetal chega ao solo, ele ainda possui uma estrutura complexa.
Existem açúcares, proteínas, celulose, hemicelulose, lignina e diversos outros compostos.
Entretanto, a planta seguinte não consegue simplesmente absorver uma folha morta.
Primeiro, esse material precisa passar por transformações.
A decomposição envolve organismos do solo capazes de quebrar moléculas complexas em moléculas menores. Fungos, bactérias e animais do solo participam desse processo em diferentes etapas.
Portanto, quando falamos em matéria orgânica, precisamos lembrar que existe uma diferença entre colocar resíduos no solo e transformar esses resíduos.
A microbiologia participa justamente dessa transformação.
O fungo não come uma folha inteira
Imagine uma palha de milho.
Ela é grande demais para entrar em uma célula de fungo.
Então, como ele consegue utilizá-la?
Os fungos liberam enzimas para fora de suas células.
A partir daí, essas enzimas começam a quebrar moléculas maiores em partes menores. Em seguida, o fungo absorve esses compostos e os utiliza como fonte de carbono, energia e nutrientes.
Ou seja, é quase como uma digestão acontecendo do lado de fora.
Por isso, as hifas podem colonizar os resíduos vegetais antes mesmo que apareçam sinais mais evidentes de decomposição.
O fungo começa trabalhando quimicamente naquele material.
Celulose é alimento, mas primeiro precisa ser desmontada
Grande parte da estrutura vegetal contém celulose.
A celulose é formada por longas cadeias de moléculas de açúcar ligadas entre si.
Embora exista energia ali, ela não está imediatamente disponível.
Primeiro, enzimas precisam cortar essa estrutura em unidades menores.
A FAO destaca fungos saprófitos como Aspergillus, Trichoderma e Penicillium entre os organismos capazes de participar da degradação da celulose no solo.
Consequentemente, aquele resíduo aparentemente resistente começa a ser desmontado.
Parte do carbono será utilizada pelos próprios microrganismos.
Outra parte volta para a atmosfera na forma de CO₂ durante a respiração.
E outra parcela passa por novas transformações dentro do solo.
Mas existe um material ainda mais difícil: lignina
Se celulose já exige trabalho, lignina é outro nível.
A lignina faz parte principalmente de tecidos vegetais mais resistentes e lenhosos.
Ela possui uma estrutura química complexa e demora mais para ser degradada.
Por isso, poucos organismos conseguem quebrá-la completamente.
Alguns grupos de fungos, principalmente certos basidiomicetos, possuem sistemas enzimáticos capazes de atuar sobre essa estrutura. Além disso, por consequência, a alta concentração de lignina ou uma relação C:N elevada torna a decomposição dos resíduos mais lenta, mesmo quando as condições ambientais são favoráveis.
Isso explica por que determinados resíduos permanecem no solo durante períodos muito maiores do que outros.
Nem toda palhada tem a mesma velocidade de decomposição.
Palha de leguminosa e palha de gramínea não desaparecem da mesma forma
A velocidade da decomposição também depende da qualidade do resíduo.
Materiais ricos em compostos facilmente utilizados tendem a desaparecer mais rápido.
Já resíduos com maior relação carbono:nitrogênio e maiores teores de lignina costumam decompor mais lentamente.
Por isso, restos de culturas diferentes apresentam comportamentos diferentes no campo.
Uma cobertura pode desaparecer rapidamente.
Outra permanece protegendo o solo durante meses.
Isso não significa necessariamente que uma é melhor que a outra.
Significa que elas entregam tipos diferentes de alimento para a comunidade decompositora.
As hifas permitem que o fungo explore o resíduo
Fungos possuem uma característica especialmente interessante.
Eles crescem formando filamentos chamados hifas.
Essas estruturas avançam pelo solo, atravessam pequenos espaços e colonizam materiais orgânicos.
Consequentemente, o fungo consegue explorar regiões diferentes ao mesmo tempo.
A FAO descreve as hifas como filamentos microscópicos que podem se estender por distâncias muito maiores do que o tamanho de uma única célula.
Isso dá aos fungos uma vantagem importante na exploração de resíduos vegetais distribuídos pelo solo.
Em vez de depender apenas do alimento que chega até eles, eles conseguem crescer em direção ao alimento.
Durante a decomposição, nutrientes também mudam de forma
A matéria orgânica contém nutrientes.
Nitrogênio, fósforo, enxofre e outros elementos podem estar presos em moléculas orgânicas.
Durante a decomposição, parte desses elementos pode ser convertida para formas minerais.
Esse processo é conhecido como mineralização.
Porém, existe uma parte importante que costuma ser esquecida.
O nutriente liberado não vai automaticamente para a planta.
O próprio fungo também precisa de nutrientes para crescer.
Assim, parte deles pode ser temporariamente incorporada à biomassa microbiana.
Depois, quando esses organismos morrem ou são consumidos, os nutrientes voltam a circular.
Por isso, decomposição não funciona como abrir um saco e liberar tudo de uma vez.
É um fluxo.
Fungos também viram matéria orgânica
Existe algo interessante nessa história.
O fungo começa decompondo matéria orgânica.
Depois, ele próprio passa a fazer parte dela.
Enquanto cresce, carbono e nutrientes são incorporados à biomassa fúngica.
Quando hifas envelhecem e morrem, seus resíduos entram novamente na cadeia de decomposição.
Consequentemente, a matéria orgânica do solo não é formada apenas pelos restos das plantas que caíram ali.
Ela também recebe contribuições da própria biomassa microbiana.
A FAO destaca que resíduos de fungos e bactérias passam a integrar a matéria orgânica durante os sucessivos ciclos de transformação no solo.
Ou seja:
o fungo decompõe o resíduo e, depois, também vira resíduo.
Quanto mais quente e úmido, mais rápida é a decomposição?
Até certo ponto.
Temperatura, umidade, oxigênio, pH e disponibilidade de nutrientes influenciam fortemente a atividade dos decompositores.
Quando existe água suficiente e temperaturas favoráveis, a atividade microbiana tende a aumentar.
Entretanto, condições extremas podem desacelerar o processo.
Solo muito seco reduz a atividade.
Já a saturação prolongada diminui o oxigênio e muda completamente quais organismos conseguem atuar.
Além disso, a alta concentração de lignina ou uma relação C:N elevada torna a decomposição dos resíduos mais lenta, mesmo em condições ambientais favoráveis.
Portanto, não é apenas clima.
É a combinação entre ambiente, microrganismos e qualidade do resíduo.
Sem decomposição, o ciclo trava
Imagine todo o resíduo produzido pela lavoura permanecendo intacto para sempre.
Os nutrientes contidos nele ficariam presos.
O carbono deixaria de circular.
Novos compostos orgânicos não seriam formados.
Assim, a decomposição é uma das funções centrais do ecossistema do solo.
Fungos não trabalham sozinhos.
Bactérias, actinomicetos, minhocas, ácaros e vários outros organismos participam do processo.
Porém, os fungos possuem importância especial justamente por conseguirem atuar sobre materiais vegetais complexos e resistentes.
A palhada não alimenta diretamente a planta
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Quando colocamos resíduos sobre o solo, não estamos simplesmente entregando nutrientes para a cultura seguinte.
Estamos alimentando uma cadeia biológica.
Primeiro, organismos colonizam o material.
Depois, enzimas quebram estruturas.
Os microrganismos utilizam parte dos compostos liberados.
Nutrientes são retidos, transformados e liberados novamente.
Enquanto isso, parte daquele material passa a integrar novas formas de matéria orgânica.
Portanto, uma palhada no solo não é apenas cobertura.
Ela é matéria-prima para uma fábrica biológica que funciona abaixo da lavoura.
E os fungos estão entre os trabalhadores mais importantes dessa fábrica.
Veja também:
Como ativar a microbiologia do solo
Fonte:
FAO: The importance of soil organic matter
Fontes e referências
FAO. The importance of soil organic matter. Explica o papel dos fungos decompositores na degradação de celulose, lignina e outros compostos orgânicos.
FAO Soil Biodiversity. Decomposers. Aborda a ação de fungos e outros organismos na transformação de resíduos vegetais e destaca a degradação de celulose e lignina.
FAO. Organic matter decomposition and the soil food web. Material sobre os processos de decomposição, mineralização e transformação da matéria orgânica no solo.
FAO. Conservation agriculture: the organic matter. Descreve a participação de fungos e bactérias na transformação de moléculas orgânicas complexas em compostos menores.