
Autor(a): Diro Hokari
A chuva pode ter voltado para a sua região, mas existe uma diferença enorme entre chover e o solo conseguir aproveitar essa água. A infiltração de água no solo depende diretamente das condições encontradas na superfície e nas camadas abaixo dela. Por isso, quando a estrutura está prejudicada, parte da água que poderia permanecer disponível para as plantas pode simplesmente seguir pela superfície.
E é aí que começa um problema que nem sempre aparece no pluviômetro.
Choveu 50 mm. Mas quanto realmente entrou no solo?
O produtor normalmente acompanha o volume de chuva em milímetros.
Esse número é importante. Porém, sozinho, ele não mostra quanto dessa água entrou no perfil.
Imagine duas áreas vizinhas recebendo exatamente a mesma chuva.
Em uma delas, a água entra com facilidade. Na outra, começam a aparecer pequenas enxurradas, poças e pontos onde a água demora a desaparecer.
O volume de chuva foi igual.
A resposta do solo, não.
Isso acontece porque a infiltração de água no solo sofre influência da porosidade, da estrutura, da cobertura da superfície, da umidade anterior e da presença de camadas compactadas.
Portanto, o problema pode não estar no céu.
Pode estar alguns centímetros abaixo dos seus pés.
Solo compactado muda o caminho da chuva
Quando o solo sofre compactação, as partículas ficam mais próximas e parte do espaço poroso diminui.
Com isso, principalmente os poros maiores podem perder continuidade.
Esses espaços são importantes porque permitem a circulação de água e ar pelo perfil.
Consequentemente, quando existe uma camada compactada, a água pode encontrar maior resistência para avançar.
Além disso, as raízes também enfrentam dificuldade.
Em vez de crescerem em profundidade e explorarem um volume maior de solo, elas podem ficar concentradas nas regiões superficiais.
Então surge uma situação perigosa.
Você pode ter água abaixo da camada compactada e, ainda assim, a planta apresentar dificuldade para acessá-la.
Nem toda água que cai fica na lavoura
Quando a intensidade da chuva supera a capacidade de infiltração do solo, a água começa a se acumular na superfície.
Depois disso, ela tende a se deslocar.
Assim surgem as enxurradas.
E água correndo sobre o solo raramente vai embora sozinha.
Partículas de terra podem ser transportadas junto com ela. Além disso, materiais presentes na superfície também podem seguir esse caminho.
Por isso, uma chuva forte sobre um solo mal estruturado pode representar menos armazenamento de água e mais erosão.
Em outras palavras, o produtor pode receber uma chuva excelente e aproveitar apenas parte dela.
O excesso de água também pode virar problema
Falar de infiltração não significa simplesmente defender que toda água precisa entrar rapidamente.
O equilíbrio é mais importante.
Depois de entrar, o excesso de água também precisa conseguir avançar pelo perfil.
Caso isso não aconteça, os poros podem permanecer preenchidos por água durante muito tempo.
Nesse cenário, sobra menos espaço para o ar.
E as raízes precisam de oxigênio para manter suas funções metabólicas.
Portanto, solos com drenagem limitada podem apresentar problemas mesmo depois de uma chuva considerada boa.
É justamente por isso que estrutura, infiltração e drenagem precisam ser observadas juntas.
Poros são pequenos, mas fazem uma diferença enorme
Olhando de cima, o solo pode parecer uma massa sólida.
Na prática, existe uma rede enorme de espaços entre partículas, agregados, raízes e canais formados por organismos.
São os poros.
Os maiores ajudam bastante na entrada rápida de água e na troca de gases.
Já os menores participam de forma importante da retenção de água.
Quando existe uma distribuição adequada desses espaços, o solo consegue equilibrar melhor água e ar.
Por isso, melhorar a estrutura não significa apenas deixar o solo mais “fofo”.
Significa criar condições para que água, oxigênio e raízes ocupem o perfil de maneira mais favorável.
A cobertura muda a forma como a chuva chega ao solo
Agora pense em uma gota de chuva atingindo diretamente uma superfície descoberta.
Ela chega com energia.
Esse impacto constante pode desagregar partículas da superfície. Posteriormente, partículas menores podem ocupar poros e favorecer a formação de uma camada superficial mais fechada.
Como consequência, a entrada de água pode diminuir.
Quando existe cobertura vegetal ou palhada, parte dessa energia é dissipada antes de atingir diretamente o solo.
Além disso, a cobertura ajuda a reduzir a exposição da superfície ao sol e diminui a perda rápida de umidade.
Por isso, a infiltração de água no solo começa antes mesmo de a gota atravessar os primeiros centímetros.
Raiz também constrói caminhos para a água
Raiz não serve apenas para buscar água e nutrientes.
Enquanto cresce, ela explora espaços, atravessa regiões menos resistentes e influencia a estrutura ao redor.
Quando uma raiz morre, por exemplo, parte dos canais deixados no solo pode continuar existindo.
Esses caminhos podem facilitar posteriormente o avanço de novas raízes, do ar e da água.
Além disso, microrganismos, matéria orgânica e diferentes organismos do solo participam da formação e estabilização dos agregados.
Por isso, a condição física e a condição biológica do solo não devem ser tratadas como assuntos completamente separados.
Elas fazem parte do mesmo sistema.
Como perceber que sua lavoura não está aproveitando bem a chuva?
Alguns sinais aparecem logo depois de um evento de chuva.
Água escorrendo entre as linhas pode ser um deles.
Poças permanecendo por muito tempo também merecem atenção.
Além disso, áreas onde a água infiltra de maneira muito diferente podem indicar variações importantes na estrutura do solo.
No entanto, o diagnóstico não deve parar na superfície.
Abrir uma trincheira e observar as raízes pode revelar bastante coisa.
Raízes tortas, achatadas, concentradas em uma única camada ou crescendo lateralmente podem indicar regiões de maior resistência.
Também podem ser utilizados penetrômetros, avaliações de densidade, testes de infiltração e outras ferramentas de diagnóstico.
O importante é não esperar a próxima seca para descobrir que a água nunca chegou onde deveria.
Leia também: [Como identificar sinais de compactação antes do plantio]
A chuva mostra o resultado do manejo
Em períodos secos, muitos problemas físicos do solo ficam escondidos.
Então a chuva chega.
E ela começa a revelar diferenças.
Algumas áreas, a água desaparece rapidamente da superfície porque consegue entrar no perfil.
Outras, ela corre.
Outras ainda, permanece acumulada.
Por isso, observar uma lavoura durante e depois de uma chuva pode revelar muito sobre o comportamento daquele solo.
A infiltração de água no solo não depende apenas de quanto chove.
Ela também depende de como esse solo chegou até aquele momento.
Compactação, cobertura, raízes, matéria orgânica, porosidade e manejo acumulado ao longo do tempo ajudam a definir o caminho de cada gota.
Antes de olhar o pluviômetro, olhe para o chão
Receber uma boa chuva é importante.
Mas aproveitar essa chuva é ainda mais.
Porque 40 ou 50 milímetros no pluviômetro não significam necessariamente 40 ou 50 milímetros armazenados onde as raízes conseguem alcançar.
Por isso, depois da próxima chuva, caminhe pela área.
Observe se existe enxurrada.
Veja onde a água acumula.
Confira como o solo responde.
E, principalmente, olhe para as raízes.
No fim das contas, a pergunta não é apenas:
Quanto choveu?
A pergunta que pode mudar sua leitura da lavoura é:
Quanto dessa chuva o seu solo realmente conseguiu guardar?
Veja também:
Compactação favorece Fusarium? Entenda a relação
Fonte:
Embrapa: Impacto das mudanças climáticas sobre doenças de importantes culturas no Brasil
Fontes e referências
EMBRAPA. Compactação do solo. Agência de Informação Tecnológica.
FAO. Infiltration rate and infiltration test. Food and Agriculture Organization of the United Nations.
FAO. Hydrology, soil architecture and water movement. Food and Agriculture Organization of the United Nations.
USDA Natural Resources Conservation Service. Soil Health for Water Quality and Quantity.
USDA Natural Resources Conservation Service. Role of Organic Matter.
USDA Natural Resources Conservation Service. Soil Health Assessment.