
Autor: Diro Hokari
O milho tem um papel duplo no contexto dos nematoides. Primeiro, ele é vítima, pois sofre perdas diretas de produtividade quando a área está infestada. Além disso, também pode se tornar cúmplice do problema, já que multiplica populações de nematoides que podem comprometer a lavoura de soja na safra seguinte. Por isso, entender essa dinâmica é fundamental para qualquer produtor que trabalha com o sistema soja e milho, predominante no Cerrado brasileiro.
Com o Pratylenchus brachyurus — o nematoide mais prevalente nas lavouras do Brasil central — infectando igualmente soja e milho, a rotação mais comum do agronegócio brasileiro tornou-se, inadvertidamente, uma máquina de multiplicação de nematoides. Este artigo explica como essa dinâmica funciona, como identificar o problema no milho e como manejá-lo de forma a proteger tanto a cultura do milho quanto a soja da safra seguinte.
Quais nematoides atacam o milho no Brasil
Pratylenchus brachyurus — o maior problema no sistema soja-milho
Pratylenchus brachyurus é altamente polífago. Ou seja, infecta soja, milho, algodão, cana, feijão, amendoim e diversas outras espécies. Por isso, seu manejo se torna mais complexo em sistemas agrícolas com rotação limitada. Nas lavouras do Cerrado, esse nematoide está entre os principais responsáveis pelas perdas causadas por nematoides, tanto na soja quanto no milho.
A biologia do P. brachyurus é o coração do problema no sistema soja-milho:
– Infecta a soja na safra de verão
– Sobrevive nos restos de raízes e no solo durante a entressafra
– Infecta o milho de segunda safra (safrinha)
– Multiplica sua população durante o ciclo do milho
– Retorna ao solo em densidade muito superior para infectar a soja da safra seguinte
Cada ciclo de milho em área infestada pode dobrar ou triplicar a população de P. brachyurus disponível para a soja. Esta é a razão pela qual lavouras do Cerrado com histórico de soja-milho contínuo frequentemente apresentam pressão crescente de nematoides ao longo dos anos, mesmo sem perceber a relação de causa e efeito.
Meloidogyne javanica e M. incognita — nematoide das galhas no milho
Embora o milho seja considerado menos suscetível ao nematoide das galhas do que a soja, alguns híbridos são hospedeiros de M. javanica e M. incognita, especialmente sob alta pressão de inóculo. A suscetibilidade varia amplamente entre híbridos — um fator que pode ser aproveitado na seleção do material de plantio.
Heterodera zeae — nematoide de cisto do milho
Menos prevalente no Brasil do que nos EUA e Ásia, H. zeae existe em algumas regiões produtoras de milho no Brasil, principalmente no Nordeste e em zonas de fronteira agrícola. Seu impacto é crescente em áreas de monocultura de milho.
Sintomas de nematoide no milho
Na parte aérea
- Reboleiras com plantas menores, menos vigorosas, de folhas amareladas — especialmente em áreas de textura de solo mais arenosa
- Espigamento irregular — espigas menores e com menor número de fileiras de grãos nas reboleiras afetadas
- Maturação precoce em área circunscrita — plantas que ficam “pastadas” mais cedo que o restante da lavoura
- Baixa resposta à adubação nitrogenada em cobertura
Nas raízes
- Lesões necróticas marrons a negras nas raízes laterais — diagnóstico característico de Pratylenchus. Em milho, as lesões aparecem primeiro nas raízes finas de absorção e progridem para raízes mais grossas em infestações severas.
- Raízes com aspecto corroído — a destruição progressiva das raízes laterais deixa apenas as raízes de sustentação (raízes nodais) intactas, criando um sistema radicular “pelado”
- Escurecimento da base das raízes nodais — em infestações severas, o escurecimento alcança a base do colmo
- Galhas nas raízes laterais — diagnóstico de Meloidogyne em híbridos suscetíveis
O impacto econômico do nematoide no milho
O impacto direto do nematoide no milho de segunda safra (safrinha) é frequentemente subestimado porque:
- A safrinha já opera com margens menores e qualquer queda de produtividade é atribuída ao “risco climático normal”
- Os sintomas se confundem com estresse hídrico — que também é frequente na safrinha
- A atenção do produtor está focada no fechamento da safra de soja, não no acompanhamento do milho
Mas os números são relevantes:
– Reduções de 10% a 25% de produtividade de milho em áreas com alta infestação de P. brachyurus
– Custo direto em uma lavoura de 100 ha com produtividade média de 100 sacas: perda de 1.000 a 2.500 sacas por safra
E o impacto indireto na soja seguinte pode ser ainda maior: ao multiplicar a população de nematoides durante o ciclo do milho, a perda na soja subsequente pode superar em muito a perda direta no milho.
A armadilha do sistema soja-milho sem manejo de nematoide
Este é o cenário que se repete nas lavouras do Cerrado:
Ano 1: soja com presença de P. brachyurus — produtividade levemente abaixo do esperado. Diagnóstico: “foi a seca” ou “faltou potássio”.
Ano 1 (segunda safra): milho de safrinha na mesma área — P. brachyurus multiplica sua população. Produtividade do milho 15% abaixo do esperado. Diagnóstico: “veranico” ou “preço baixo, não vale investir mais”.
Ano 2: soja na área com população de P. brachyurus 2–3 vezes maior. Reboleiras mais evidentes. Produtividade cai mais acentuadamente. Começa-se a suspeitar de nematoide — tarde demais.
Ano 3+: ciclo se repete com intensidade crescente. O produtor começa a investir em nematicidas químicos, que oferecem alívio temporário sem solucionar o problema estrutural. Custos crescem, margens caem.
Como quebrar o ciclo: manejo do nematoide no sistema soja-milho
Estratégia 1: Escolha de híbridos com menor suscetibilidade ao Pratylenchus
Diferentes híbridos de milho apresentam níveis variados de suscetibilidade ao P. brachyurus. Portanto, a escolha de materiais moderadamente resistentes ou menos hospedeiros pode reduzir de forma significativa a multiplicação do nematoide durante o ciclo do milho. Além disso, essa decisão não exige custo adicional, apenas planejamento na escolha do híbrido mais adequado para áreas de maior risco.
Na prática, o primeiro passo é solicitar ao fornecedor de sementes os dados de tolerância aos nematoides para cada híbrido. Algumas empresas já disponibilizam essas informações nos catálogos, o que facilita a escolha do material mais adequado. Por isso, em áreas de maior risco, prefira híbridos classificados como moderadamente resistentes ou menos suscetíveis ao P. brachyurus.
Estratégia 2: Tratamento de sementes de milho com bionematicida
O tratamento de sementes de milho com Bacillus subtilis — da mesma forma que se faz na soja — reduz a infecção nas semanas críticas de estabelecimento do sistema radicular. Plantas bem estabelecidas desenvolvem sistemas radiculares mais robustos, com maior tolerância à infestação.
Protocolo: tratar as sementes de milho com produto à base de B. subtilis junto com o tratamento fungicida e inseticida padrão. Verificar compatibilidade com os demais produtos do tratamento.
Estratégia 3: Inserção de uma safra de crotalária antes da soja
Quando a pressão de nematoide na área está alta, uma das estratégias mais eficazes para reduzir rapidamente a população é substituir o milho de segunda safra por crotalária, como a Crotalaria spectabilis, por uma safra. Isso acontece porque a crotalária não é hospedeira das principais espécies de nematoide. Além disso, ela produz monocrotalina, um composto com ação nematostática que ajuda a reduzir a viabilidade dos ovos no solo.
Em áreas de alta pressão de P. brachyurus, uma safra de crotalária pode reduzir a população em 60%–80%, criando condições muito melhores para a soja subsequente.
Estratégia 4: Condicionamento biológico do solo
O condicionador de solo biológico pode ser aplicado no solo no plantio do milho (sulco), ou pós emergência (pulverizado), para iniciar a construção do microbioma supressivo. Os resultados costumam ser rápidos — e a aplicação no milho também beneficia a soja da safra seguinte, pois os microrganismos permanecem e se multiplicam no solo entre as safras.
Estratégia 5: Monitoramento por talhão
Cada talhão tem um histórico diferente de infestação. Por isso, o monitoramento sistemático é essencial. Com a coleta de amostras de solo e a análise nematológica a cada duas safras, o produtor consegue identificar os talhões de maior risco e agir com mais precisão. Assim, as intervenções são concentradas onde realmente são necessárias, o custo do manejo é otimizado e a eficiência das estratégias adotadas aumenta.
Resumo: protocolo de manejo de nematoide no sistema soja-milho
| Ação | Quando | Objetivo |
| Análise nematológica do solo | Pré-safra soja | Diagnóstico e mapeamento por talhão |
| Tratamento de sementes (soja) | Plantio soja | Proteção nas semanas críticas |
| Condicionador biológico | Plantio soja | Construção de supressividade |
| Escolha de híbrido de milho | Planejamento safra | Reduzir multiplicação de P. brachyurus |
| Tratamento de sementes (milho) | Plantio milho | Proteção inicial do sistema radicular |
| Crotalária (se pressão alta) | Safrinha em área crítica | Redução rápida de população |
| Condicionador biológico | Plantio milho | Continuidade da construção do microbioma |
| Monitoramento | A cada 2 safras | Ajuste das estratégias |
Conclusão: o milho é parte da solução — ou do problema
A escolha é do produtor: o milho de segunda safra pode ser o maior aliado ou o maior multiplicador de nematoides do seu sistema produtivo. Com as escolhas certas de híbrido, tratamento de sementes e manejo do solo, o milho se torna parte de uma rotação que constrói a saúde biológica da área — em vez de comprometê-la.
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Link externo de autoridade:
– Embrapa Milho e Sorgo — Nematoides na cultura do milho