Nematoides podem estar muito mais profundos do que a amostragem comum alcança

Análise nematológica: o que é e como fazer uma amostragem

Autor(a): Diro Hokari

Uma análise pode indicar poucos nematoides na área e, ainda assim, existir uma população importante alguns centímetros abaixo de onde a amostra terminou.

Isso acontece porque nem todos os fitonematoides ocupam o perfil do solo da mesma maneira.

Em muitas amostragens, os técnicos coletam solo nos primeiros 20 ou 30 centímetros e, para diversos grupos, essa profundidade permite uma boa estimativa da população. Porém, algumas espécies fogem desse padrão.

Algumas concentram suas populações a 50, 80 e até 180 centímetros de profundidade.

Portanto, quando o objetivo é entender realmente o que acontece abaixo da lavoura, a profundidade de amostragem para nematoides pode fazer diferença no resultado.

A maior parte está mesmo perto da superfície?

Em muitos casos, sim.

A região superficial concentra grande quantidade de raízes ativas, matéria orgânica e condições favoráveis à atividade biológica. Por isso, amostragens realizadas nos primeiros 20 a 30 centímetros normalmente conseguem representar razoavelmente muitas populações de fitonematoides.

Ferraz e Brown explicam que essa faixa é adequada para estimar a densidade populacional da maioria dos grupos mais comuns estudados na camada arável.

Entretanto, transformar essa recomendação geral em uma regra absoluta pode esconder parte da população.

A distribuição vertical depende da espécie, da cultura hospedeira e também das características do solo.

Assim, dois nematoides encontrados na mesma propriedade podem ocupar profundidades completamente diferentes.

Existem nematoides vivendo a mais de um metro de profundidade

Alguns exemplos ajudam a entender a dimensão dessa diferença.

Segundo Ferraz e Brown, Trichodorus viruliferus pode ocorrer predominantemente entre 50 e 60 centímetros.

Longidorus macrosoma pode ser encontrado entre 70 e 80 centímetros.

Porém, o caso mais impressionante citado pelos autores é Xiphinema index. Essa espécie pode ocorrer principalmente entre 120 e 180 centímetros de profundidade.

Isso significa que uma amostra limitada aos primeiros 20 centímetros estaria mais de um metro acima da região onde parte importante da população pode estar concentrada.

Consequentemente, a ausência ou baixa quantidade encontrada em uma amostra superficial não permite concluir, sozinha, que toda a área apresenta baixa população.

Até espécies do mesmo gênero podem ocupar profundidades diferentes

A situação fica ainda mais curiosa quando nematoides geneticamente próximos são comparados.

Ferraz e Brown citam um exemplo observado no Brasil envolvendo duas espécies do gênero Xiphinema.

Xiphinema surinamense apareceu quase exclusivamente nos primeiros 25 centímetros do solo.

No mesmo ambiente, entretanto, Xiphinema machoni foi encontrado apenas em profundidades superiores a 50 centímetros.

Portanto, não basta saber apenas que existe um determinado gênero na área.

A espécie também pode mudar completamente a interpretação sobre onde procurar.

A cultura também influencia onde o nematoide aparece

A profundidade das raízes importa.

Culturas com sistemas radiculares mais profundos podem criar condições para que determinadas populações permaneçam em camadas inferiores do solo.

Uma revisão científica sobre métodos de amostragem destaca justamente essa diferença. Segundo os autores, culturas de raízes profundas podem exigir coletas mais profundas. Em culturas de raízes profundas, os técnicos podem coletar amostras em camadas mais profundas. Na videira, por exemplo, a amostragem pode chegar a cerca de 60 centímetros, enquanto culturas com raízes mais superficiais geralmente exigem coletas em profundidades menores.

Além disso, a própria distribuição das raízes ao longo do perfil muda durante o desenvolvimento da cultura.

Consequentemente, a população de nematoides também pode apresentar distribuição vertical diferente conforme a disponibilidade de tecido radicular.

Um estudo em soja mostrou como uma amostra rasa pode enganar

Essa diferença já foi observada experimentalmente.

Pesquisadores avaliaram a distribuição vertical de cinco fitonematoides em áreas de soja cultivadas em solo arenoso. Foram comparadas as camadas de 0 a 15, 15 a 30 e 30 a 45 centímetros.

O resultado mostrou que as espécies não estavam distribuídas igualmente.

Pratylenchus brachyurus, por exemplo, apresentou suas maiores populações entre 15 e 30 centímetros na maioria das avaliações. Além disso, os autores concluíram que uma amostragem limitada aos primeiros 15 centímetros detectaria apenas uma parcela minoritária das populações da maioria das espécies avaliadas.

Ou seja, apenas aumentar alguns centímetros na coleta já poderia mudar a interpretação do diagnóstico.

Isso significa que toda amostra precisa chegar a 1,8 metro?

Não.

Esse seria justamente o erro oposto.

A profundidade ideal não deve ser escolhida apenas pelo maior valor já registrado para um nematoide.

Para muitas situações agrícolas, os primeiros 20 ou 30 centímetros continuam sendo uma faixa importante e tecnicamente útil. Além disso, uma revisão sobre amostragem de nematoides aponta que aproximadamente 30 centímetros frequentemente alcançam a região de maior densidade populacional.

Porém, existem situações em que a estratégia precisa ser adaptada.

Se existe histórico de determinada espécie, cultura de raízes profundas, sintomas persistentes ou resultados laboratoriais que não parecem explicar o comportamento observado no campo, investigar camadas adicionais pode ajudar a enxergar uma parte do problema que ficou fora da primeira coleta.

O nematoide acompanha muito mais do que a profundidade

Outro ponto precisa ser considerado.

A população não varia apenas de cima para baixo.

Fitonematoides também apresentam distribuição horizontal irregular. Por isso, podem existir regiões com populações elevadas próximas de outras com números significativamente menores.

Além disso, Ferraz e Brown destacam que diferenças podem aparecer até mesmo entre lados opostos de uma árvore ou entre plantas relativamente próximas.

Portanto, profundidade, ponto de coleta, raízes presentes, espécie e época de amostragem fazem parte da mesma interpretação.

Uma amostra representa aquilo que foi coletado.

Ela não consegue representar aquilo que ficou fora do trado.

Um resultado baixo nem sempre encerra a investigação

Quando uma análise nematológica apresenta população pequena, a primeira conclusão pode ser que os nematoides não explicam o problema observado.

Muitas vezes, essa conclusão estará correta.

Porém, se os sintomas continuam, existe histórico de infestação ou a espécie procurada possui comportamento conhecido em camadas mais profundas, vale revisar como a amostragem foi realizada.

Porque o laboratório só consegue analisar aquilo que chegou até ele.

E, enquanto a amostra termina aos 20 ou 30 centímetros, alguns nematoides podem estar muito mais abaixo.

Fontes

FERRAZ, L. C. C. B.; BROWN, D. J. F. Nematologia de Plantas: fundamentos e importância. Manaus: Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016. Capítulo 4, seção sobre distribuição dos fitonematoides no solo. A obra descreve a utilização comum dos primeiros 20 a 30 centímetros e registra espécies encontradas predominantemente a 50, 80 e até 180 centímetros de profundidade.

ABDEL-RAHMAN, F. H. et al. Optimizing Sampling and Extraction Methods for Plant-Parasitic and Entomopathogenic Nematodes. Plants, 2021. A revisão discute como cultura, raízes e distribuição vertical devem ser consideradas para definir a profundidade de amostragem.

MCSORLEY, R.; DICKSON, D. W. Vertical Distribution of Plant-parasitic Nematodes in Sandy Soil under Soybean. Journal of Nematology, 1990. O estudo mostrou diferenças importantes entre as camadas de 0 a 45 centímetros em áreas de soja e alertou para a baixa representatividade de uma coleta muito superficial.

Links das fontes:
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8066318/

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC2619006

Veja também: Chuvas fortes podem aumentar a dispersão de nematoides?

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