Por que alguns ovos de nematoides só eclodem depois do inverno

Medidas preventivas e manejo integrado contra nematoides em batata -  Revista Cultivar

Autor(a): Diro Hokari

Imagine passar todo o inverno dentro de um ovo e só sair quando as condições indicarem que existe uma boa chance de encontrar alimento.

Alguns nematoides conseguem fazer exatamente isso.

Em determinadas espécies, os ovos atravessam períodos desfavoráveis em um estado conhecido como diapausa. Durante esse período, o desenvolvimento permanece interrompido e não recomeça simplesmente porque apareceu um dia mais quente.

Existe uma lógica por trás dessa espera.

Ao sincronizar seu ciclo com as estações e, em alguns casos, com a presença da planta hospedeira, o nematoide reduz o risco de sair do ovo no momento errado.

O inverno não necessariamente mata o nematoide

Temperaturas muito baixas reduzem a atividade dos nematoides. Entretanto, algumas espécies de regiões temperadas desenvolveram mecanismos capazes de ajudá-las a atravessar justamente esses períodos.

A diapausa em nematoides está entre essas estratégias.

Ferraz e Brown descrevem a diapausa como uma condição adaptativa na qual o nematoide permanece dormente durante um período desfavorável bem definido. Ela ocorre, por exemplo, em algumas espécies de Meloidogyne, Globodera e Heterodera expostas a invernos rigorosos.

Nos nematoides de cistos, os ovos ainda contam com outra proteção.

O corpo da fêmea morta forma o cisto, uma estrutura resistente que mantém centenas de ovos protegidos no solo. Assim, eles podem atravessar períodos de frio, seca e ausência da cultura hospedeira.

Portanto, o inverno pode interromper o ciclo sem necessariamente eliminar a população.

Diapausa não é apenas ficar parado por causa do frio

Existe uma diferença importante entre quiescência e diapausa.

Na quiescência, o organismo reduz suas atividades em resposta direta a uma condição ruim. Quando o problema desaparece, ele pode voltar rapidamente à atividade.

Na diapausa, o processo é mais complexo.

Mesmo que o ambiente volte temporariamente a apresentar condições favoráveis, o nematoide pode continuar dormente. Ferraz e Brown explicam que a quebra da diapausa pode depender de um estímulo adicional e de um período fisiológico específico.

Por isso, um breve aumento da temperatura no meio do inverno não significa necessariamente uma eclosão imediata.

O nematoide não responde apenas ao que acontece naquele dia.

Ele pode responder a uma sequência de condições ambientais.

O frio pode fazer parte do próprio relógio biológico

Em alguns nematoides de cisto, atravessar um período frio ajuda a preparar os ovos para uma futura retomada do ciclo.

Pesquisas com Globodera pallida, importante nematoide de cisto da batata, mostram que a dormência envolve etapas diferentes.

Primeiro, a diapausa precisa terminar. Um período de frio associado ao inverno pode participar desse processo. Depois disso, o juvenil ainda pode permanecer em estado de quiescência até receber outro sinal importante: substâncias liberadas pelas raízes de uma planta hospedeira.

Assim, o sistema funciona quase como uma sequência de travas.

O inverno passa.

A temperatura volta a subir.

Depois, uma planta adequada começa a crescer.

Somente então uma grande quantidade de juvenis pode encontrar condições favoráveis para deixar os ovos.

A raiz pode dar o sinal final

Essa sincronização fica ainda mais impressionante nos nematoides de cisto.

Espécies como Globodera pallida e G. rostochiensis conseguem permanecer dentro dos cistos enquanto não encontram condições adequadas.

Quando uma cultura hospedeira começa a desenvolver raízes, ela libera compostos no solo. Esses exsudatos podem penetrar no cisto e estimular a eclosão dos juvenis infectantes.

Estudos mostram que essa dependência de sinais da planta é particularmente forte em espécies com uma faixa estreita de hospedeiros. Dessa forma, a eclosão ocorre com maior chance de haver uma planta adequada nas proximidades.

Isso oferece uma vantagem enorme.

Depois que o juvenil sai do ovo, ele possui reservas limitadas para procurar uma raiz.

Portanto, sair no momento errado pode significar gastar energia sem encontrar alimento.

Esperar pode ser mais vantajoso.

Existe até eclosão sincronizada com a primavera

Ferraz e Brown descrevem um exemplo interessante envolvendo Meloidogyne naasi, espécie associada principalmente a gramíneas em regiões da Europa.

Ela produz uma geração de ovos no final da safra de verão. Durante o outono e o inverno, a queda da temperatura interrompe o avanço do desenvolvimento.

Com a chegada da primavera e o aumento gradual da temperatura, o processo recomeça. Mais tarde, uma grande quantidade de juvenis deixa os ovos em um período relativamente concentrado.

Assim, a população consegue aproximar seu ciclo daquele das plantas que poderá parasitar.

Não se trata de o nematoide “saber” que a primavera chegou.

Seu organismo responde aos sinais ambientais que acompanharam sua evolução.

Nem todo ovo de nematoide funciona dessa maneira

A diapausa não representa uma regra para todos os fitonematoides.

Além disso, espécies diferentes respondem de maneiras distintas à temperatura, à umidade e aos sinais químicos das plantas.

Em Meloidogyne javanica, por exemplo, a temperatura influencia fortemente a velocidade de eclosão, mas isso não significa que seus ovos precisem passar pelo inverno para eclodir. Ferraz e Brown mostram que a eclosão dessa espécie ocorre mais rapidamente a 25 °C do que a temperaturas menores.

Portanto, é preciso conhecer a espécie antes de interpretar o comportamento da população.

A dormência ajuda a explicar por que algumas populações persistem por tanto tempo

Quando uma cultura hospedeira deixa a área, seria conveniente imaginar que o nematoide simplesmente morrerá por falta de alimento.

Entretanto, determinados grupos possuem estratégias muito mais eficientes de sobrevivência.

O cisto protege os ovos.

A diapausa ajuda a atravessar períodos desfavoráveis.

A temperatura participa da sincronização do ciclo.

Além disso, em determinadas espécies, os exsudatos das raízes ajudam a indicar que uma planta hospedeira voltou à área.

Por isso, a população pode permanecer no solo mesmo quando praticamente nenhuma atividade aparece naquele momento.

O problema não desapareceu.

Em alguns casos, ele apenas está esperando a hora certa para voltar.

Fontes

FERRAZ, L. C. C. B.; BROWN, D. J. F. Nematologia de Plantas: fundamentos e importância. Manaus: Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016. Capítulos sobre estratégias de sobrevivência, diapausa, temperatura, eclosão e nematoides de cistos.
PALOMARES-RIUS, J. E. et al. Gene expression changes in diapause or quiescent potato cyst nematode, Globodera pallida, eggs after hydration or exposure to tomato root diffusate. O estudo discute a quebra da diapausa após exposição ao frio e a posterior resposta aos exsudatos de plantas hospedeiras.

NGALA, B. M. et al. Hatching Induction of Cyst Nematodes in Bare Soils Drenched With Root Exudates Under Controlled Conditions. Estudo sobre o papel dos exsudatos radiculares na indução da eclosão de diferentes nematoides de cisto.

Links para consulta:

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4748719

https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7820344

Veja também:
https://solusolo.com.br/chuvas-fortes-podem-aumentar-a-dispersao-de-nematoides/

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