Nematoides também competem com outros organismos pelo espaço no solo

Defensivo biológico é eficiente no manejo de nematóides - CompreRural

Autor(a): Diro Hokari

Quando pensamos em nematoides, geralmente imaginamos um organismo chegando até uma raiz, penetrando no tecido e começando a se alimentar.

Mas existe uma disputa acontecendo antes disso.

O solo já está ocupado.

Bactérias, fungos, protozoários, ácaros, microartrópodes e diferentes grupos de nematoides dividem um ambiente com espaço e recursos limitados. Portanto, um fitonematoide não vive isolado de tudo que acontece ao redor.

Ele faz parte de uma comunidade.

E essa comunidade pode influenciar onde uma população consegue se estabelecer, crescer ou encontrar condições desfavoráveis.

O solo não é um espaço vazio

Um único volume de solo pode abrigar organismos com estratégias completamente diferentes.

Alguns consomem bactérias. Outros se alimentam de fungos. Existem predadores, decompositores e organismos que dependem diretamente das plantas. Além disso, diferentes espécies podem utilizar recursos semelhantes.

Ferraz e Brown destacam que os fitonematoides convivem constantemente com bactérias, fungos, microartrópodes e nematoides de vida livre. Consequentemente, o comportamento desses organismos precisa ser entendido dentro desse conjunto de interações.

Os autores também apontam a competição entre integrantes da microfauna e da microflora por nutrientes e espaço como um dos fatores capazes de influenciar a distribuição agregada dos fitonematoides no solo.

Portanto, uma população não depende apenas da presença de uma raiz suscetível.

O restante da comunidade também importa.

O que significa competir por espaço no solo?

Não significa imaginar uma bactéria empurrando fisicamente um nematoide para longe da raiz.

A disputa é mais complexa.

Ao redor das raízes existe uma região extremamente ativa chamada rizosfera. Ali, exsudatos vegetais fornecem compostos que alimentam diversas populações microbianas. Como resultado, vários organismos procuram ocupar os mesmos microsítios e aproveitar os recursos disponíveis.

Alguns conseguem colonizar rapidamente a superfície radicular. Outros utilizam compostos presentes naquela região. Enquanto isso, predadores, parasitas e organismos antagonistas também participam da rede.

Por isso, espaço e alimento não estão disponíveis de maneira ilimitada.

A comunidade biológica modifica constantemente esse ambiente.

A raiz vira um ponto disputado

Para muitos fitonematoides, a raiz representa alimento e também o local necessário para completar parte do ciclo.

Entretanto, eles não chegam a uma superfície limpa.

Microrganismos já podem ocupar a região ao redor da raiz e até sua própria superfície. Além disso, esses organismos produzem metabólitos, consomem nutrientes e interagem entre si.

Uma revisão publicada na Annual Review of Phytopathology destaca que vários microrganismos da rizosfera atacam nematoides parasitas de plantas. Além disso, a própria planta influencia tanto a população do nematoide quanto a estrutura da comunidade de organismos antagonistas ao redor das raízes.

Assim, a relação planta e nematoide não acontece entre apenas dois participantes.

Existe uma comunidade inteira no meio da conversa.

Nem todo nematoide é inimigo da planta

Esse é outro ponto importante.

O solo também abriga muitos nematoides de vida livre.

Ferraz e Brown explicam que alguns se alimentam de bactérias, outros de fungos, algas ou pequenos animais. Existem até espécies predadoras de outros nematoides. Além disso, esses grupos podem participar da ciclagem de carbono, compostos nitrogenados e nutrientes minerais.

Portanto, encontrar nematoides no solo não significa automaticamente encontrar um problema fitossanitário.

Na verdade, diferentes grupos ocupam posições diferentes na cadeia alimentar.

Para entender melhor essa diferença, veja também: Benéficos ou fitoparasitas? O papel dos nematoides no solo.

Alguns organismos também podem pressionar populações fitoparasitas

A competição representa apenas uma parte dessas relações.

Alguns organismos atuam diretamente sobre nematoides.

Fungos nematófagos podem atacar ovos ou capturar formas móveis. Certas bactérias produzem compostos capazes de interferir no desenvolvimento ou comportamento dos fitonematoides. Além disso, outros organismos podem funcionar como predadores.

Por isso, pesquisadores estudam há décadas o papel da comunidade biológica na regulação das populações.

A literatura científica mostra que plantas influenciam a estrutura dessa comunidade na rizosfera e, consequentemente, alteram as interações entre nematoides e seus antagonistas.

Isso não significa que um solo biologicamente diverso eliminará os nematoides fitoparasitas.

Porém, significa que a população deles não depende apenas da própria capacidade reprodutiva.

Existem pressões biológicas ao redor.

A cadeia alimentar do solo muda o cenário

O USDA descreve o solo como uma verdadeira rede alimentar.

Bactérias e fungos participam da decomposição. Protozoários e diferentes nematoides consomem microrganismos. Ácaros e outros artrópodes também ocupam posições nessa cadeia. Ao mesmo tempo, nutrientes circulam entre esses organismos e voltam ao sistema.

Por isso, alterar uma população pode provocar efeitos em outras.

Esse conceito ajuda a entender por que o solo não pode ser analisado apenas como suporte físico para a planta.

Existe atividade biológica constante debaixo da lavoura.

Para uma visão mais ampla dessa comunidade, consulte o Soil Biology Primer do USDA.

O manejo também interfere nessa disputa

As práticas realizadas na lavoura alteram o ambiente onde essas interações acontecem.

Ferraz e Brown destacam que fertilizantes, defensivos e outras intervenções podem provocar mudanças diretas. Por outro lado, operações que modificam estrutura e conteúdo de água do solo também causam efeitos indiretos sobre os organismos presentes.

Além disso, cada área possui características próprias de textura, matéria orgânica e composição da mesofauna e microfauna.

Portanto, o equilíbrio biológico de uma área não será necessariamente igual ao de outra.

Mesmo dentro do mesmo talhão, diferentes regiões podem apresentar comunidades distintas.

Isso ajuda a explicar as reboleiras?

Em parte, sim.

Os fitonematoides costumam apresentar distribuição agregada. Ou seja, suas populações se concentram em determinados pontos em vez de ocupar toda a área de maneira uniforme.

Ferraz e Brown citam vários fatores que ajudam a formar esse padrão: concentração de ovos, compatibilidade com plantas hospedeiras, práticas agrícolas e competição por nutrientes e espaço entre organismos da microfauna e microflora.

Consequentemente, uma reboleira não surge apenas porque o nematoide decidiu permanecer naquele ponto.

As condições daquele ambiente favoreceram a formação daquela população.

O nematoide faz parte de uma disputa muito maior

Quando um nematoide chega perto da raiz, ele encontra muito mais do que alimento.

Encontra bactérias.

Fungos.

Outros nematoides.

Predadores.

Competidores.

E uma rede de organismos utilizando recursos e ocupando espaço ao mesmo tempo.

Por isso, olhar apenas para o nematoide deixa uma parte importante da história de fora.

A pergunta não deveria ser somente quantos nematoides existem no solo.

Também vale perguntar: com quem eles estão dividindo esse ambiente?

A resposta pode ajudar a entender por que a mesma espécie consegue se multiplicar intensamente em determinado ponto enquanto encontra muito mais resistência biológica poucos metros adiante.

Fontes

FERRAZ, L. C. C. B.; BROWN, D. J. F. Nematologia de Plantas: fundamentos e importância. Manaus: Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016. Capítulos 1 e 4, com informações sobre nematoides de vida livre, interações entre organismos, competição por nutrientes e espaço e distribuição das populações.
KERRY, B. R. Rhizosphere Interactions and the Exploitation of Microbial Agents for the Biological Control of Plant-Parasitic Nematodes. Annual Review of Phytopathology, v. 38, p. 423-441, 2000.

NEHER, D. A. Ecology of Plant and Free-Living Nematodes in Natural and Agricultural Soil. Annual Review of Phytopathology, v. 48, p. 371-394, 2010. A revisão discute o papel central dos nematoides na cadeia alimentar do solo e a coexistência de espécies que compartilham recursos.

USDA Natural Resources Conservation Service. Soil Biology Primer. Material sobre a comunidade biológica, cadeia alimentar e funções dos organismos presentes no solo.

Link interno:
https://solusolo.com.br/beneficos-ou-fitoparasitas-o-papel-dos-nematoides-no-solo/

Link de saída:
https://www.nrcs.usda.gov/resources/education-and-teaching-materials/soil-biology-primer

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