
Autor(a): Diro Hokari
Uma semente germina. A primeira raiz começa a crescer. Pouco depois, substâncias microscópicas são liberadas no solo.
Para alguns nematoides, isso pode funcionar quase como um despertador.
Eles estavam protegidos dentro dos ovos, praticamente esperando. Então, sinais químicos produzidos pelas raízes ajudam a indicar que uma planta hospedeira está por perto.
É nesse momento que a eclosão pode ser estimulada.
Esse mecanismo mostra algo importante sobre a relação entre exsudatos radiculares e nematoides: a raiz não serve apenas como alimento depois que o parasita chega até ela. Em determinadas espécies, ela também pode participar do sinal que indica a hora de sair do ovo.
A raiz conversa quimicamente com o solo
As raízes não ficam isoladas no solo.
Durante seu crescimento, liberam diversas substâncias conhecidas como exsudatos radiculares. Esses compostos participam de uma intensa comunicação química na região próxima às raízes.
Microrganismos podem responder a esses sinais. Entretanto, alguns nematoides também conseguem utilizá-los.
Ferraz e Brown explicam que, em condições ambientais favoráveis, muitos nematoides conseguem eclodir sem a necessidade de estímulos externos.
Porém, em determinados grupos, especialmente entre os nematoides de cistos, a história muda.
Nesses casos, estímulos específicos podem ser necessários para que juvenis deixem os ovos. Entre esses estímulos estão justamente substâncias produzidas pela planta hospedeira e liberadas pelas raízes.
Por que esperar pela raiz?
Do ponto de vista biológico, faz sentido.
Um juvenil que deixa o ovo precisa encontrar uma planta adequada para continuar seu desenvolvimento.
Se a eclosão acontecesse indiscriminadamente durante um período sem hospedeiros disponíveis, parte desses juvenis poderia gastar suas reservas energéticas procurando uma planta que simplesmente não existe naquele momento.
Por outro lado, permanecer protegido dentro do ovo pode aumentar as chances de sobrevivência.
Assim, determinadas espécies desenvolveram uma sincronização muito mais refinada com suas plantas hospedeiras.
A presença de compostos liberados pelas raízes pode indicar que o ambiente finalmente oferece uma oportunidade para o parasitismo.
A raiz, portanto, não está literalmente “acordando” o nematoide. Porém, seus sinais químicos podem participar do processo que desencadeia a eclosão.
O nematoide de cisto da soja tem um exemplo impressionante
Um dos exemplos mais interessantes envolve Heterodera glycines, o nematoide de cisto da soja.
Ferraz e Brown citam a glicinoeclepina A, uma substância identificada como estimulante da eclosão dessa espécie.
Isso significa que existe uma relação química bastante específica entre o nematoide e sua planta hospedeira.
Além disso, fenômeno semelhante ocorre com nematoides de cisto da batata.
Nas espécies Globodera pallida e Globodera rostochiensis, estudos mostraram que componentes presentes nos exsudatos das raízes da batata podem estimular a eclosão. Segundo a obra, esses fatores químicos foram identificados como terpenoides.
Portanto, para determinados nematoides, encontrar uma raiz não começa necessariamente depois da eclosão.
A interação pode começar antes mesmo de o juvenil abandonar o ovo.
O cisto ajuda o nematoide a esperar
Esse mecanismo fica ainda mais interessante quando observamos como os nematoides de cistos sobrevivem no ambiente.
Em espécies de Heterodera e Globodera, muitos ovos permanecem dentro do corpo da fêmea depois que ela morre.
Com o tempo, essa estrutura se transforma no chamado cisto.
A parede fica mais resistente e os ovos permanecem protegidos no seu interior. Dessa maneira, eles podem persistir no ambiente durante meses e, em determinadas situações, durante anos.
Assim, temos duas estratégias funcionando juntas.
Primeiro, existe uma estrutura capaz de proteger os ovos por um longo período.
Depois, existe um mecanismo que pode ajudar a sincronizar a saída dos juvenis com a presença de uma planta hospedeira.
Para o nematoide, é uma estratégia eficiente.
Para o produtor, é justamente uma das razões pelas quais o problema pode continuar na área mesmo depois de uma safra aparentemente tranquila.
Temperatura e umidade também entram nessa história
Os exsudatos não trabalham sozinhos.
A eclosão dos nematoides também depende das condições ambientais.
Temperatura, umidade, oxigênio e presença de uma planta adequada podem influenciar esse processo. Quando as condições são favoráveis, a atividade biológica aumenta e os juvenis encontram melhores condições para deixar os ovos.
Além disso, a temperatura pode modificar fortemente a velocidade da eclosão.
Por isso, não basta pensar apenas na presença ou ausência de uma cultura hospedeira. É preciso observar o ambiente como um sistema.
Nem todo nematoide depende desse sinal
Aqui existe uma diferença importante.
Não podemos afirmar que qualquer nematoide presente no solo espera um exsudato radicular para eclodir.
Muitas espécies conseguem completar esse processo quando temperatura, umidade e outras condições ambientais estão adequadas, sem depender diretamente de um sinal químico produzido pela planta.
O mecanismo de estímulo por exsudatos é particularmente relevante em determinados grupos, como alguns nematoides de cistos.
Portanto, espécie, cultura e condições ambientais precisam ser consideradas antes de qualquer conclusão.
A planta pode anunciar a própria chegada
Talvez essa seja a parte mais curiosa dessa interação.
Para nós, uma raiz recém-formada representa apenas o início do desenvolvimento da cultura.
Para determinados nematoides, entretanto, os compostos liberados por ela podem representar informação.
Existe hospedeiro, alimento e oportunidade para completar o ciclo.
Enquanto o produtor observa a emergência das primeiras plantas acima do solo, uma comunicação invisível já pode estar acontecendo alguns centímetros abaixo.
E alguns nematoides sabem interpretar essa mensagem.
Fontes
GAUTIER, C. et al. Hatching of Globodera pallida Induced by Root Exudates Is Not Influenced by Soil Microbiota Composition. 2020. O estudo confirma que exsudatos radiculares da batata estimulam a eclosão de Globodera pallida.
Acessar no PubMed
NGALA, B. M. et al. Hatching Induction of Cyst Nematodes in Bare Soils Drenched With Root Exudates Under Controlled Conditions. 2021. Avaliou a indução da eclosão de nematoides de cisto por exsudatos de raízes hospedeiras.
Acessar no PubMed
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