
Autor(a): Diro Hokari
Meta descrição: A anidrobiose em nematoides permite que algumas espécies reduzam drasticamente suas atividades durante a seca e voltem à atividade quando a umidade retorna.
Uma área pode passar meses praticamente seca e, ainda assim, continuar carregando nematoides capazes de voltar à atividade quando as condições melhoram.
Isso acontece porque algumas espécies desenvolveram uma estratégia de sobrevivência impressionante: a anidrobiose em nematoides.
Na prática, o organismo reduz drasticamente suas atividades metabólicas quando perde água. Assim, consegue atravessar períodos extremamente desfavoráveis consumindo pouquíssima energia. Depois, quando a umidade retorna, suas atividades podem ser retomadas.
É quase como apertar o botão de pausa.
Por isso, uma seca prolongada não significa necessariamente que o problema com nematoides desapareceu.
Nematoides dependem de água, mas aprenderam a sobreviver sem ela
Os nematoides são organismos aquáticos. No solo, eles dependem principalmente da fina película de água existente ao redor das partículas para se movimentar e desenvolver suas atividades.
Entretanto, algumas espécies conseguem tolerar uma redução intensa dessa água.
Segundo Ferraz e Brown, determinados nematoides podem sobreviver sob umidade muito baixa por longos períodos em estado de repouso, praticamente sem gasto energético. Quando condições favoráveis retornam, suas atividades normais são retomadas.
Além disso, os autores explicam que os fitonematoides desenvolveram mecanismos capazes de tolerar perdas graduais de água e preservar seus fluidos corporais mesmo durante longas estiagens.
Portanto, o desaparecimento da água disponível não significa obrigatoriamente a morte imediata do nematoide.
O que é anidrobiose?
Quando a condição ambiental se torna desfavorável, alguns nematoides inicialmente reduzem suas atividades. Esse estado mais simples é conhecido como quiescência.
Contudo, se o estresse continua, determinadas espécies podem chegar a um estado de atividade extremamente reduzida, chamado criptobiose.
Quando essa resposta ocorre especificamente por causa da desidratação, ela recebe o nome de anidrobiose.
Nesse estado, o metabolismo pode ser reduzido de maneira tão intensa que o organismo permanece praticamente inativo.
Por isso, dizer que o nematoide “desliga” o metabolismo funciona como uma comparação didática. Biologicamente, porém, é mais correto dizer que suas atividades metabólicas são fortemente reduzidas.
Alguns conseguem sobreviver durante meses ou até anos
É aqui que essa estratégia fica ainda mais impressionante.
Ferraz e Brown citam o caso de Scutellonema cavenessi, nematoide associado a culturas como amendoim, milheto e sorgo em regiões africanas com longos períodos secos.
No Senegal, indivíduos dessa espécie foram encontrados em anidrobiose depois de até nove meses de seca no solo. Quando chegaram as primeiras chuvas, eles retomaram suas atividades a tempo de alcançar os novos cultivos.
Entretanto, outros casos são ainda mais extremos.
A obra reúne registros de sobrevivência prolongada em diferentes espécies. Ditylenchus dipsaci, por exemplo, apresentou sobrevivência de até 23 anos em tecido vegetal mantido em condições secas. Já estruturas associadas a Anguina tritici permaneceram viáveis por períodos ainda maiores em determinadas condições de conservação.
Esses números não significam que qualquer nematoide presente em uma lavoura sobreviverá durante décadas. A capacidade varia bastante conforme a espécie, o estádio de desenvolvimento e as condições do ambiente.
Ainda assim, eles mostram por que simplesmente esperar a seca eliminar uma população pode ser uma aposta perigosa.
Quando a chuva volta, o nematoide também pode voltar
Depois da anidrobiose, a recuperação depende da reidratação.
Curiosamente, nem todas as espécies reagem da mesma maneira.
Alguns nematoides conseguem retomar rapidamente suas atividades após o contato com água. Em outros casos, entretanto, a reidratação precisa acontecer gradualmente. Caso contrário, o organismo pode não sobreviver ao próprio retorno da água.
Esse período entre o desaparecimento do estresse e a recuperação plena das atividades é chamado de lag phase.
Assim, depois de uma estiagem, a umidade retorna ao solo e cria novamente condições para movimentação, desenvolvimento e contato com raízes hospedeiras.
Consequentemente, uma população que parecia ter desaparecido pode voltar a participar ativamente do sistema.
A seca pode esconder o problema
Esse comportamento ajuda a explicar uma situação que pode confundir quem observa apenas os sintomas da lavoura.
Durante condições extremamente secas, a atividade dos nematoides pode cair significativamente. Além disso, o próprio crescimento das plantas e das raízes fica limitado.
Portanto, a pressão aparente pode diminuir.
Entretanto, isso não significa necessariamente redução definitiva da população.
Quando as chuvas retornam, as plantas voltam a emitir raízes e o ambiente recupera umidade. Ao mesmo tempo, indivíduos que permaneceram em estados de sobrevivência podem retomar suas atividades.
Por isso, o histórico da área continua sendo importante mesmo depois de uma seca severa.
Nem todo nematoide entra em anidrobiose
Também é importante evitar uma generalização.
A anidrobiose não ocorre da mesma maneira em todas as espécies. Além disso, a tolerância à dessecação varia conforme o estádio do organismo e as condições em que a perda de água acontece.
Os próprios autores destacam que os mecanismos de sobrevivência podem ocorrer em diferentes estádios do ciclo biológico, enquanto outros ficam restritos a determinados estádios.
Além disso, existem outras estratégias de sobrevivência, como criobiose diante do frio intenso, anoxibiose quando falta oxigênio, osmobiose diante de alterações osmóticas e até termobiose sob temperaturas excessivamente elevadas.
Ou seja, estamos diante de organismos com uma capacidade de adaptação muito maior do que sua aparência microscópica sugere.
A chuva pode não trazer apenas alívio para a lavoura
Depois de meses de estiagem, a chegada da chuva normalmente representa uma boa notícia.
Contudo, debaixo do solo, ela também pode mudar completamente o comportamento de organismos que estavam praticamente inativos.
Alguns nematoides não precisam permanecer ativos durante todo o período seco para sobreviver.
Eles podem esperar.
E quando a água volta, a atividade também pode voltar.
Por isso, o histórico de ocorrência, a análise de solo e raízes e o acompanhamento da área continuam importantes mesmo depois de períodos prolongados de seca.
A ausência aparente do problema não significa, necessariamente, que ele deixou de existir.
Fonte: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19400647
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