Solo compactado perde água mais rápido?

Autor(a): Diro Hokari

A chuva caiu. O solo está úmido. Mesmo assim, poucos dias depois, a planta começa a sentir falta de água.

Parece contraditório, mas isso pode acontecer quando existe compactação.

Por isso, dizer apenas que solo compactado perde água mais rápido não explica todo o problema. Na verdade, a situação pode ser ainda mais séria: a água chega à lavoura, mas uma parte dela não entra no perfil como deveria e outra parte fica fora do alcance das raízes.

Ou seja, não basta chover. A água precisa entrar no solo e a raiz precisa conseguir chegar até ela.

Solo compactado perde água mais rápido?

Depende do que entendemos por “perder água”.

A compactação aproxima as partículas do solo e reduz parte do espaço poroso. Consequentemente, a movimentação de água, ar e raízes pode ser dificultada.

Quando a chuva chega com intensidade maior do que a capacidade de infiltração daquele solo, parte da água começa a escorrer pela superfície. Portanto, aquela chuva que poderia abastecer o perfil acaba deixando a área.

O USDA aponta justamente esse efeito: a compactação reduz os espaços porosos, restringe a infiltração e pode aumentar o escoamento superficial e a erosão.

Assim, o problema não é simplesmente o solo “secar mais rápido”.

O solo compactado pode aproveitar pior cada chuva que recebe.

A chuva pode cair e a água não ficar onde interessa

Imagine duas áreas recebendo a mesma quantidade de chuva.

Na primeira, o solo apresenta boa estrutura e poros contínuos. Dessa forma, uma parte importante da água infiltra e avança pelo perfil.

Na segunda, existe uma camada compactada.

Nesse caso, a água encontra uma barreira física. A infiltração pode ser reduzida e o escoamento superficial aumenta. Além disso, dependendo da posição e intensidade da camada compactada, também podem aparecer pontos de acúmulo de água.

Portanto, compactação e falta de água não são opostos.

Um solo pode apresentar água acumulada em determinado momento e, poucos dias depois, colocar a cultura sob estresse hídrico.

A Embrapa relaciona a compactação à redução da infiltração, ao acúmulo superficial de água e ao menor crescimento das raízes em profundidade.

O maior problema pode estar na raiz

Agora entra uma parte que muitas vezes recebe menos atenção.

Mesmo quando existe água armazenada abaixo da camada compactada, a planta precisa alcançá-la.

Entretanto, raízes encontram maior resistência física para atravessar determinadas camadas compactadas. Como consequência, o sistema radicular pode se concentrar mais próximo da superfície.

Isso reduz o volume de solo explorado pela cultura.

E quanto menor esse volume, menor tende a ser o reservatório de água disponível para a planta durante um período sem chuva.

A FAO destaca a compactação como uma das principais causas de restrição física ao aprofundamento das raízes.

Por isso, duas plantas podem estar na mesma área, receber a mesma chuva e responder de maneira completamente diferente dependendo da qualidade física do solo.

A planta pode estar com sede em cima de um reservatório de água

Essa talvez seja a maneira mais simples de entender o problema.

Ter água no solo não significa que a planta consegue usar essa água.

Se grande parte das raízes estiver concentrada nos primeiros centímetros, a cultura passa a depender muito mais da umidade dessa camada superficial.

E justamente essa região sofre variações mais rápidas ao longo dos dias.

Enquanto isso, pode existir água em profundidade que simplesmente não está sendo explorada de forma eficiente pelo sistema radicular.

Na soja, por exemplo, a Embrapa explica que um sistema radicular capaz de explorar aproximadamente 60 centímetros de solo pode acessar um reservatório de água muito maior. Já a compactação pode estimular o crescimento horizontal das raízes e diminuir esse reservatório disponível.

Portanto, o problema não começa quando a previsão mostra vários dias sem chuva.

Ele pode ter começado meses antes, na estrutura do solo.

Compactação também pode transformar chuva em enxurrada

Quanto menos água infiltra, maior é a possibilidade de parte dela permanecer sobre a superfície e escoar.

Consequentemente, aumenta também o risco de transporte de partículas de solo.

Assim, uma área compactada pode sofrer duas vezes.

Primeiro, perde a oportunidade de armazenar parte da chuva.

Depois, pode perder solo pela erosão provocada pelo próprio escoamento.

Estudos também relacionam a compactação à redução da infiltração, ao aumento do déficit hídrico e ao crescimento mais superficial das raízes.

Por isso, quando uma chuva forte atravessa a lavoura rapidamente, a pergunta não deveria ser apenas:

“Quanto choveu?”

Também deveria ser:

“Quanto dessa água realmente entrou no solo?”

Como identificar se a compactação está limitando a água?

Nenhum sinal isolado fecha um diagnóstico. Entretanto, alguns indícios merecem atenção.

Raízes crescendo lateralmente, camadas endurecidas, empoçamento depois da chuva, enxurradas, erosão e diferenças de desenvolvimento entre pontos da lavoura podem indicar problemas físicos.

Além disso, podem ser utilizadas trincheiras para observar o perfil e o sistema radicular. Penetrômetros também ajudam a identificar mudanças na resistência do solo, desde que textura e umidade sejam consideradas durante a interpretação.

O USDA, inclusive, recomenda avaliar sinais como raízes superficiais, maior resistência à penetração, escoamento excessivo e acúmulo de água para investigar possíveis camadas compactadas.

Resolver compactação não significa simplesmente passar uma máquina

Esse é outro erro comum.

Ao identificar uma camada compactada, pode surgir a vontade de entrar imediatamente com algum implemento para romper o solo.

Porém, é preciso entender primeiro onde está o problema, qual é a profundidade, qual é sua intensidade e o que provocou aquela condição.

Caso contrário, o efeito pode durar pouco.

O tráfego de máquinas, principalmente em condições inadequadas de umidade, pode recriar camadas compactadas. Além disso, sistemas com pouca presença de raízes ao longo do ano tendem a aproveitar menos o potencial biológico de formação e manutenção da estrutura.

Por isso, plantas de cobertura, diversidade de raízes, matéria orgânica, redução do tráfego desnecessário e planejamento das operações também fazem parte da discussão.

Em determinadas situações, intervenções mecânicas podem ser necessárias. No entanto, elas precisam estar inseridas em uma estratégia que reduza a chance de o problema voltar. O USDA ressalta que a descompactação mecânica pode apresentar efeito temporário quando o tráfego de máquinas volta a compactar aquela camada.

Talvez sua lavoura não esteja recebendo pouca água

Talvez esteja aproveitando pouca água.

Essa diferença muda completamente a forma de olhar para períodos de seca.

Nem sempre o problema começa no céu.

Às vezes, chove o suficiente para abastecer parte do perfil, porém a estrutura do solo limita a infiltração. Em outras situações, a água entra, mas as raízes não conseguem explorar profundidades maiores.

Portanto, antes de olhar apenas para o volume acumulado no pluviômetro, vale olhar para baixo.

Porque uma chuva de 30, 50 ou 70 milímetros significa pouco se boa parte dela escorrer pela superfície ou ficar fora do alcance das raízes.

A lavoura não aproveita a chuva que cai. Aproveita a água que consegue armazenar e acessar.

Leia também

Para entender como esse problema pode ficar ainda mais sério quando o clima apresenta chuvas irregulares, veja o conteúdo sobre solo compactado e El Niño. Solo compactado e El Niño: quando o clima irregular vira prejuízo na lavoura

Fontes e referências

Embrapa Solos. Compactação do solo e crescimento de plantas: como identificar, evitar e remediar.

Embrapa Soja. SECA: Soja em Carência de Água, Manejo do Solo.

USDA Natural Resources Conservation Service. Understanding Soil Risks and Hazards: Compaction.

USDA Natural Resources Conservation Service. Biology of Soil Compaction.

FAO. Hydrology, Soil Architecture and Water Movement.

Revista Brasileira de Ciência do Solo. Infiltração de água no solo sob escarificação e rotação de culturas.

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