Autor(a): Diro Hokari

Quando a temperatura sobe, a planta sente.

Mas ela não é a única.

Debaixo do solo, os microrganismos também respondem ao calor. E, entre eles, estão diferentes espécies de Fusarium.

Então surge uma dúvida importante:

temperatura alta favorece Fusarium?

Em muitas situações, sim. Porém, existe uma diferença importante.

Não existe uma temperatura única que favoreça todo Fusarium. O gênero reúne diferentes espécies, isolados e formas especializadas que respondem de maneiras distintas ao ambiente.

Ainda assim, diversas fusarioses apresentam maior desenvolvimento em condições quentes. Uma revisão científica publicada em 2026 indica que o desenvolvimento de murchas causadas por Fusarium oxysporum pode ocorrer de forma favorável entre aproximadamente 23 °C e 35 °C, dependendo da interação entre patógeno e hospedeiro.

Portanto, o calor pode favorecer o fungo.

Mas essa é apenas metade da história.

Temperatura alta favorece Fusarium diretamente?

Em determinadas espécies, sim.

A temperatura interfere diretamente no metabolismo, crescimento, germinação e esporulação dos fungos.

Para diferentes espécies de Fusarium, estudos apontam frequentemente temperaturas próximas de 25 °C a 30 °C como favoráveis ao crescimento e à formação de esporos.

Entretanto, isso não significa que quanto mais quente, melhor.

Existe um limite.

Quando a temperatura ultrapassa a faixa adequada para determinada espécie, seu crescimento também pode diminuir.

Por exemplo, estudos com Fusarium oxysporum associados à bananeira encontraram crescimento ótimo aproximadamente entre 23 °C e 29 °C. Por outro lado, temperaturas próximas de 35 °C já limitaram o desenvolvimento de alguns isolados.

Ou seja:

calor favorável e calor extremo não são a mesma coisa.

O fungo não responde sozinho à temperatura

Aqui está um ponto que muda bastante a interpretação.

Quando a temperatura aumenta, não é somente o fungo que muda seu comportamento.

A planta também muda.

Em dias muito quentes, a transpiração aumenta. Além disso, se a disponibilidade de água não acompanhar essa demanda, a planta entra em estresse hídrico.

Consequentemente, raízes podem reduzir o crescimento, tecidos podem perder vigor e a capacidade da planta de responder a outros estresses pode diminuir.

Uma revisão sistemática publicada em 2026 avaliou estudos sobre mudanças climáticas e doenças de plantas. Entre os trabalhos analisados, o déficit hídrico apareceu como um dos fatores ambientais mais relacionados ao aumento da severidade das doenças. Fusarium foi justamente um dos gêneros mais estudados.

Portanto, em alguns casos, o calor pode trabalhar em dois lados.

Favorece condições adequadas ao patógeno e, ao mesmo tempo, aumenta o estresse da planta.

Uma planta estressada pode facilitar o avanço da doença

Imagine duas plantas expostas ao mesmo Fusarium.

Uma apresenta raízes bem desenvolvidas, boa disponibilidade de água e condições favoráveis de crescimento.

A outra enfrenta calor intenso, déficit hídrico e raízes pouco desenvolvidas.

O patógeno é o mesmo.

Entretanto, o hospedeiro não está nas mesmas condições.

Por isso, a severidade de uma fusariose depende da interação entre três fatores:

patógeno + planta suscetível + ambiente favorável.

A temperatura participa justamente desse terceiro componente.

Além disso, estudos indicam que podridões radiculares causadas por espécies de Fusarium podem se agravar quando a planta enfrenta temperaturas desfavoráveis, déficit hídrico, excesso de água ou condições de solo que restringem o crescimento das raízes.

Assim, olhar apenas para o fungo deixa parte do problema escondida.

Em algumas culturas, poucos graus fazem diferença

Um estudo com murcha de Fusarium em beterraba avaliou diferentes temperaturas.

Entre 15 °C e 20 °C, a doença apresentou pouco desenvolvimento. Entretanto, acima de aproximadamente 24 °C, as infecções se tornaram mais severas.

Em alface, pesquisadores observaram algo semelhante.

Cultivares suscetíveis apresentaram sintomas mais severos sob temperaturas maiores. Além disso, o crescimento de isolados de Fusarium oxysporum aumentou progressivamente até uma faixa próxima de 25 °C.

Portanto, alguns graus podem mudar significativamente a interação entre planta e patógeno.

Mas nem todo Fusarium prefere calor

Esse cuidado é essencial.

Fusarium não representa uma única doença.

Existem diferentes espécies, formas especiais, raças e hospedeiros.

Além disso, temperatura e umidade atuam juntas.

Um estudo com podridão radicular da soja mostrou, por exemplo, que Fusarium solani apresentou maior capacidade de causar doença em diferentes combinações de temperatura e umidade. Já Fusarium tricinctum mostrou preferência por temperaturas mais baixas.

Portanto, não seria correto afirmar:

“Está quente, então Fusarium sempre vai aumentar.”

A afirmação mais precisa é:

temperaturas elevadas podem favorecer determinadas espécies e doenças causadas por Fusarium, dependendo da cultura, da umidade, do solo e do próprio patógeno.

Temperatura do solo importa muito

Normalmente, quando pensamos em calor, olhamos para a temperatura do ar.

Porém, para um patógeno de solo, a temperatura ao redor das raízes merece ainda mais atenção.

O solo exposto recebe radiação diretamente e pode apresentar grandes oscilações de temperatura.

Por outro lado, a cobertura vegetal ajuda a reduzir essas variações.

Além disso, estrutura, umidade e quantidade de resíduos sobre a superfície influenciam o microclima próximo às raízes.

Isso importa porque o desenvolvimento do patógeno e o funcionamento radicular acontecem exatamente nesse ambiente.

Um documento da Embrapa, ao discutir doenças diante das mudanças climáticas, relata que uma podridão causada por Fusarium em sorgo apresenta desenvolvimento favorecido por temperaturas entre aproximadamente 25 °C e 35 °C, juntamente com condições adequadas de umidade.

Calor e seca podem formar uma combinação perigosa

Em muitos casos, o produtor não enfrenta apenas temperatura alta.

Ele enfrenta calor junto com falta de água.

Nesse cenário, a demanda da parte aérea aumenta, enquanto a raiz precisa encontrar água em um solo cada vez mais seco.

Se o sistema radicular já estiver limitado por compactação, baixa profundidade ou doenças anteriores, o problema pode aumentar.

Assim, uma planta que normalmente toleraria determinado nível populacional do patógeno pode apresentar sintomas mais intensos quando submetida ao estresse.

Por isso, o manejo de Fusarium não deveria começar apenas quando aparecem folhas amarelas ou plantas murchas.

Também é necessário observar o ambiente onde a raiz está tentando funcionar.

Então é possível manejar a temperatura?

No campo, ninguém controla o termômetro.

Entretanto, é possível manejar fatores que determinam como o solo e a planta respondem ao calor.

A cobertura do solo ajuda a diminuir oscilações térmicas e reduz a perda de água.

Além disso, raízes mais profundas permitem que a planta explore regiões onde temperatura e umidade tendem a variar menos do que na superfície.

Da mesma forma, reduzir compactação, melhorar a infiltração, diversificar culturas e evitar condições que prejudiquem as raízes ajuda a diminuir parte do estresse.

Isso não elimina Fusarium.

Porém, modifica o ambiente onde a disputa entre planta e patógeno acontece.

A temperatura não cria Fusarium

Essa talvez seja a conclusão mais importante.

Uma semana quente não cria o fungo dentro da lavoura.

O patógeno precisa estar presente.

Além disso, precisa encontrar uma planta suscetível e condições adequadas para infectá-la.

Por isso, quando a doença aumenta durante períodos mais quentes, é fácil culpar somente a temperatura.

Entretanto, o que acontece no campo normalmente envolve uma combinação.

Calor.

Umidade.

Raiz.

Compactação.

Hospedeiro.

População do patógeno.

Histórico da área.

Todos esses fatores podem participar.

Portanto, sim:

temperatura alta pode favorecer Fusarium.

Mas a pergunta mais útil talvez seja outra:

o que está acontecendo com a raiz quando essa temperatura aumenta?

Porque, muitas vezes, o calor não ajuda apenas o patógeno.

Ele também enfraquece quem precisa enfrentá-lo.

Veja também:

Compactação favorece Fusarium? Entenda a relação

Fonte:

Embrapa: Impacto das mudanças climáticas sobre doenças de importantes culturas no Brasil

Fontes e referências

Plant Physiology and Biochemistry. Revisão de 2026 sobre biologia, ecologia e manejo da murcha de Fusarium, incluindo a influência da temperatura no desenvolvimento da doença.

Plant Disease. Revisão sistemática de 2026 sobre mudanças climáticas e severidade de doenças agrícolas.

USDA Agricultural Research Service. Estudo sobre o efeito da temperatura na murcha de Fusarium da beterraba.

Plant Disease. Estudo sobre temperatura e severidade da murcha de Fusarium em alface.

Embrapa. Impacto das mudanças climáticas sobre doenças de importantes culturas no Brasil.

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