Por que nematoides são confundidos com seca ou deficiência nutricional?

Soja folha carijó, Fusarium e Nematóides: "triângulo" do perde e perde! |  Takizawa Engenharia Agronômica

Autor(a):Diro Hokari

Os nematoides são frequentemente confundidos com seca ou deficiência nutricional porque atacam, principalmente, o sistema radicular. Como o problema começa abaixo do solo, o produtor enxerga primeiro os sintomas na parte aérea da planta, enquanto a verdadeira causa permanece escondida nas raízes.

Assim, a lavoura pode apresentar amarelecimento, crescimento lento, murcha nas horas mais quentes, menor desenvolvimento e falhas em determinadas partes do talhão. Esses mesmos sinais também aparecem quando falta água ou quando algum nutriente não está disponível.

Por isso, apenas observar as folhas nem sempre permite identificar corretamente o problema.

Além disso, os nematoides são microscópicos. Eles não podem ser vistos a olho nu no campo. Dessa forma, mesmo quando a população está elevada, o ataque pode passar despercebido até que as perdas se tornem mais evidentes.

O ataque começa onde o produtor não consegue enxergar

A raiz é responsável por buscar água, absorver nutrientes e sustentar o desenvolvimento da planta. Porém, quando os nematoides atacam esse sistema, parte dessa capacidade é reduzida.

Algumas espécies penetram nos tecidos radiculares e se movimentam dentro deles. Outras estabelecem pontos permanentes de alimentação. Como resultado, células são danificadas, vasos podem perder eficiência e novas raízes deixam de se desenvolver normalmente.

Com isso, a planta fica com um sistema radicular menor, lesionado ou pouco funcional.

Mesmo que exista água no solo, a raiz atacada encontra dificuldade para absorvê-la. Da mesma forma, ainda que a adubação tenha sido realizada corretamente, os nutrientes podem não chegar à parte aérea na quantidade necessária.

Portanto, o problema não está sempre na falta de água ou de fertilizante. Muitas vezes, está na dificuldade da raiz em aproveitar aquilo que já está disponível.

Por que o sintoma parece falta de água?

Durante os períodos mais quentes do dia, a planta perde água por transpiração. Para manter o equilíbrio, as raízes precisam retirar água do solo continuamente.

No entanto, quando o sistema radicular está danificado por nematoides, essa reposição acontece de forma mais lenta. Consequentemente, as folhas podem murchar mesmo quando ainda existe umidade no solo.

Esse sintoma costuma ficar mais forte em dias quentes, em veranicos ou em áreas com solo compactado. Afinal, nessas condições, a planta já enfrenta maior dificuldade para buscar água em profundidade.

Além disso, a distribuição dos nematoides no solo geralmente ocorre em manchas. Por esse motivo, a murcha e o baixo crescimento aparecem frequentemente em reboleiras, enquanto plantas próximas ainda apresentam desenvolvimento normal.

Quando a chuva retorna, algumas plantas podem recuperar parte do aspecto visual. Entretanto, o dano nas raízes continua. Assim, o potencial produtivo pode permanecer limitado mesmo depois da melhora na umidade.

Por que o ataque também parece deficiência nutricional?

A absorção de nutrientes depende do contato entre raízes ativas e a solução do solo. Quanto maior e mais saudável for o sistema radicular, maior será o volume de solo explorado pela planta.

Por outro lado, raízes lesionadas acessam uma área menor. Além disso, tecidos danificados transportam água e nutrientes com menos eficiência.

Como consequência, podem surgir folhas amareladas, plantas menores, baixo vigor e desenvolvimento irregular. Esses sinais lembram deficiências de nitrogênio, potássio, fósforo ou outros nutrientes.

Nesse momento, aumentar a adubação sem investigar as raízes pode elevar o custo de produção sem resolver a causa principal. O nutriente pode até estar presente, porém a planta não consegue absorvê-lo adequadamente.

Assim, antes de concluir que falta fertilizante, é necessário observar se o sistema radicular continua saudável e funcional.

Os sintomas na parte aérea raramente são específicos

Um dos maiores desafios do diagnóstico é que os nematoides não costumam produzir sintomas exclusivos na parte aérea.

Amarelecimento, murcha, crescimento reduzido e baixa produtividade também podem ser provocados por compactação, encharcamento, acidez, doenças de solo, falhas de adubação ou estresse climático.

Por isso, o diagnóstico precisa considerar o conjunto de sinais encontrados na área.

Quando o problema está ligado aos nematoides, alguns indícios costumam chamar atenção:

• Sintomas distribuídos em reboleiras
• Plantas menores ao lado de plantas aparentemente normais
• Murcha mais intensa durante as horas quentes
• Raízes curtas, escurecidas ou com poucas ramificações
• Presença de galhas ou engrossamentos nas raízes
• Lesões e áreas necrosadas no sistema radicular
• Histórico de perdas semelhantes em safras anteriores

Entretanto, a ausência de galhas não elimina a possibilidade de nematoides. Espécies como os nematoides das lesões radiculares podem causar danos internos e escurecimento sem formar engrossamentos típicos.

A seca pode aumentar o prejuízo causado pelos nematoides

Nematoides e seca podem ocorrer ao mesmo tempo. Nesse caso, um problema intensifica o outro.

Primeiro, o nematoide reduz a capacidade de absorção das raízes. Depois, a falta de chuva diminui a quantidade de água disponível no solo. Como resultado, a planta entra em estresse mais rapidamente.

Além disso, plantas enfraquecidas tendem a apresentar menor crescimento radicular. Dessa forma, elas exploram menos o perfil do solo e ficam ainda mais dependentes das camadas superficiais, que perdem umidade rapidamente.

Portanto, uma lavoura com nematoides pode sentir os efeitos de um veranico antes de uma área com raízes saudáveis.

Como confirmar se o problema está nas raízes?

O primeiro passo é comparar plantas com e sem sintomas. Para isso, as raízes devem ser retiradas com cuidado, preservando o solo ao redor. Arrancar a planta com força pode romper as partes mais finas e esconder sinais importantes.

Em seguida, é necessário observar o volume de raízes, a presença de lesões, galhas, escurecimentos e falhas de crescimento.

No entanto, a confirmação deve ser feita por meio de análise nematológica de solo e raízes. A coleta precisa representar tanto a área com sintomas quanto a região de transição entre plantas afetadas e plantas aparentemente saudáveis.

O resultado permite identificar quais nematoides estão presentes e estimar a população encontrada. A partir dessas informações, o manejo pode ser planejado de acordo com a espécie, a cultura, o histórico da área e o sistema de produção.

Para aprofundar a identificação dos sintomas, também é possível consultar este material sobre nematoides das galhas, que apresenta diferentes formas de engrossamento e deformação causadas nas raízes.

Olhar apenas para as folhas pode levar ao manejo errado

Quando uma planta apresenta amarelecimento ou murcha, é natural pensar primeiro em água ou nutrição. Porém, quando o problema se repete em reboleiras, continua mesmo após a chuva ou não responde à adubação, as raízes precisam ser investigadas.

A parte aérea mostra que algo está errado. Entretanto, nem sempre revela onde o problema começou.

Por isso, observar as raízes, analisar o histórico do talhão e realizar exames laboratoriais ajuda a evitar diagnósticos precipitados. Quanto mais cedo os nematoides forem identificados, maiores serão as possibilidades de reduzir sua multiplicação e proteger o potencial produtivo das próximas safras.

Fonte: Ferraz, L. C. C. B.; Brown, D. J. F. Nematologia de plantas: fundamentos e importância. Sociedade Brasileira de Nematologia, 2016.

Leia também: EPS e retenção de umidade: a biologia segurando água perto da raiz

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