
Autor(a): Diro Hokari
A temperatura não muda apenas o clima. Ela também muda a velocidade de muitos problemas que acontecem dentro do solo. Entre eles, está o avanço dos nematoides.
Na lavoura, é comum olhar para chuva, seca, calor ou frio pensando apenas na resposta da planta. No entanto, o solo também abriga organismos que reagem diretamente a essas variações. Assim, quando a temperatura entra em uma faixa favorável, o ciclo dos nematoides pode ser acelerado.
Isso significa que o problema pode ganhar força antes mesmo de qualquer sintoma aparecer na parte aérea da cultura.
A temperatura mexe com todo o ciclo do nematoide
O ciclo dos fitonematoides envolve diferentes fases. Primeiro, existe o ovo. Depois, ocorre o desenvolvimento embrionário. Em seguida, vêm a eclosão, o crescimento dos juvenis, a busca pela raiz, a alimentação e, por fim, a reprodução.
Em cada uma dessas etapas, a temperatura do solo pode influenciar a velocidade do processo. Por isso, entender a relação entre ambiente, raiz e parasita é essencial para melhorar o manejo de nematoides em culturas agrícolas.
Portanto, quando o solo está em uma condição térmica favorável, o nematoide tende a se desenvolver melhor. O ovo pode evoluir mais rápido, a eclosão pode acontecer antes, o crescimento pode ser acelerado e a reprodução pode chegar mais cedo.
Com isso, a população aumenta em menos tempo. Consequentemente, a pressão sobre o sistema radicular também cresce.
O exemplo de Meloidogyne javanica
Entre os nematoides de maior importância agrícola, Meloidogyne javanica merece atenção. Esse nematoide está associado à formação de galhas nas raízes e pode comprometer a absorção de água e nutrientes pela planta.
Em condições favoráveis, sua atividade pode ser intensificada. A eclosão dos juvenis, por exemplo, pode ser mais rápida em temperaturas próximas de 25°C do que em temperaturas menores.
Na prática, isso mostra que o calor do solo não deve ser visto apenas como um fator climático. Ele também funciona como um acelerador biológico.
Ou seja, quando a temperatura ajuda o nematoide, o problema começa a andar mais rápido dentro da área. Esse ponto é ainda mais importante em culturas sensíveis, como a soja, em que espécies como Meloidogyne incognita e Meloidogyne javanica estão entre os principais nematoides de galhas. Para aprofundar esse tema, veja este material técnico da Embrapa sobre nematoides em soja: identificação e controle.
O ataque começa antes do sintoma
Um dos maiores desafios no manejo de nematoides é que o problema começa escondido.
Enquanto a parte aérea ainda parece normal, o ataque pode estar acontecendo na raiz. O nematoide já pode ter eclodido, encontrado a planta, penetrado no tecido radicular e iniciado sua alimentação.
Com o avanço do parasitismo, a raiz perde eficiência. Assim, a planta passa a absorver menos água e nutrientes. Além disso, ela fica mais sensível ao estresse hídrico, ao calor e a outros fatores de campo.
Por isso, quando aparecem plantas amareladas, reboleiras, falhas de crescimento e raízes fracas, o processo já está em andamento há algum tempo.
Nesse ponto, o produtor não está mais lidando com o início do problema. Está lidando com a consequência de uma pressão que começou no solo.
Por que isso importa para o manejo?
O manejo de nematoides precisa ser pensado antes do sintoma. Afinal, esperar a lavoura mostrar o problema pode custar produtividade.
A temperatura do solo deve entrar na conta porque ela interfere diretamente na velocidade do ciclo. Em períodos mais quentes, principalmente quando há umidade suficiente e presença de planta hospedeira, algumas espécies podem encontrar um ambiente mais favorável para se multiplicar.
Por outro lado, não basta olhar apenas para a temperatura. Também é necessário considerar histórico da área, cultura anterior, presença de plantas daninhas hospedeiras, análise nematológica, condição das raízes, compactação, matéria orgânica e atividade biológica do solo.
Além disso, práticas como rotação de culturas, escolha correta de plantas de cobertura e redução de hospedeiras na entressafra ajudam a diminuir a multiplicação dos nematoides. A Embrapa também destaca a rotação de culturas no controle de nematoides fitoparasitos como uma das estratégias importantes dentro do manejo.
Dessa forma, o produtor deixa de agir apenas quando o dano aparece e passa a manejar o sistema antes que a pressão fique alta.
Solo vivo ajuda a reduzir vulnerabilidades
Um solo com boa estrutura, boa infiltração de água, raízes bem distribuídas e maior atividade biológica tende a oferecer melhores condições para a planta enfrentar pressões.
Isso não elimina a necessidade de diagnóstico nem substitui um manejo integrado. Porém, ajuda a construir um ambiente radicular mais equilibrado.
Afinal, nematoide não deve ser tratado apenas como um problema isolado. Ele está ligado ao sistema. Quando o solo está compactado, pobre em raízes, descoberto, com baixa diversidade e pouca vida ativa, a planta sente mais rápido qualquer pressão.
Em hortaliças, por exemplo, o cuidado com diagnóstico, sobrevivência, disseminação e manejo também é decisivo, como mostra este conteúdo técnico da Embrapa sobre nematoides em hortaliças.
Por isso, cuidar do solo também é cuidar da raiz. E cuidar da raiz é proteger a base da produtividade.
Temperatura de solo também é manejo
A temperatura do solo precisa ser observada com mais atenção. Ela não influencia apenas a planta. Também interfere na velocidade dos organismos que vivem no ambiente radicular.
No caso dos nematoides, essa relação é decisiva. Em uma faixa favorável, o ciclo pode acelerar. Com isso, a população pode crescer mais rápido e o dano pode ser percebido tarde demais.
Portanto, o produtor precisa olhar para o manejo antes da reboleira aparecer.
Porque, quando a planta mostra o sintoma, o nematoide já começou o trabalho dentro do solo.
Leia também: O problema não é só chover pouco, é o solo perder água rápido
Por isso, além de observar a temperatura do solo, o produtor também precisa pensar no manejo desde o sulco. Veja também: como prevenir nematoides logo no plantio.