O que é Nematoide? O Inimigo Invisível das Raízes que Custa R$ 65 Bilhões por Ano ao Agronegócio

Nematoide das galhas: uma grande ameaça às lavouras! - Pós-graduação Ead  AgroPós

Autor(a): Diro Hokari

Nematoide é um verme microscópico que habita o solo e, nas espécies fitoparasitas, ataca as raízes das plantas para se alimentar. É uma das pragas mais antigas, mais distribuídas e destrutivas da agricultura brasileira — e a mais difícil de perceber, justamente porque o olho humano não consegue enxergá-la.

Além disso, com mais de 25.000 espécies descritas no mundo, os nematoides existem em praticamente todos os ambientes, como mares, rios, solo, tecidos vegetais e animais. No solo agrícola, entretanto, a grande maioria cumpre funções ecológicas positivas.

O problema, portanto, está em um grupo específico: os fitonematoides, também chamados de nematoides fitoparasitas. Esses organismos parasitam as raízes das plantas e, como consequência, causam danos expressivos à produção agrícola. Segundo a Sociedade Brasileira de Nematologia, esses prejuízos chegam a R$ 65 bilhões por ano no agronegócio nacional.

O que é nematoide — definição científica em linguagem acessível

Do ponto de vista biológico, o nematoide é um animal do filo Nematoda, ou seja, pertence a um grupo de organismos multicelulares de corpo cilíndrico, não segmentado, com cutícula resistente e simetria bilateral. Em geral, a maioria mede entre 0,3 mm e 1 mm de comprimento. Por isso, esses organismos são completamente invisíveis a olho nu.

Além disso, são seres aquáticos, pois vivem no filme de água que envolve as partículas do solo. Dessa forma, conseguem se movimentar no ambiente e alcançar as raízes das plantas. Ainda assim, apresentam alta resistência a condições adversas.

Em algumas espécies, por exemplo, estruturas de dormência são formadas, o que permite a sobrevivência durante secas prolongadas, temperaturas extremas e até períodos sem hospedeiro por vários anos.

O que distingue o fitonematoide dos demais é, principalmente, o estilete bucal. Essa estrutura rígida, semelhante a uma agulha oca, é usada para perfurar as células vegetais.

A partir disso, o nematoide injeta substâncias salivares que alteram o metabolismo da célula. Em seguida, suga o conteúdo celular e passa a se alimentar dos nutrientes que deveriam chegar às folhas, flores e frutos.

Como o nematoide age nas raízes — passo a passo do parasitismo

Entender o processo de infecção ajuda a compreender por que o manejo precisa ser preventivo e de longo prazo.

1. Detecção do hospedeiro

O nematoide detecta a planta por meio de sinais químicos, especialmente os exsudatos radiculares liberados pelas raízes no solo. Esses compostos, portanto, funcionam como um “GPS biológico”, orientando os juvenis infectivos, conhecidos como J2, em direção ao hospedeiro.

Além disso, essa orientação pode acontecer mesmo a distâncias de vários centímetros. Dessa forma, o nematoide consegue localizar a raiz antes mesmo de entrar em contato direto com ela.

2. Penetração na raiz

O juvenil infectivo, inicialmente, se posiciona próximo à zona de elongação radicular. Em seguida, usa o estilete para penetrar mecanicamente na epiderme da raiz.

Além disso, essa penetração ocorre junto com a injeção de enzimas que amolecem a parede celular. Dessa forma, a entrada do nematoide no tecido vegetal se torna mais fácil.

3. Migração e estabelecimento

Após entrar na raiz, o nematoide migra entre as células radiculares em busca do local ideal de alimentação. No entanto, esse comportamento varia conforme o tipo de fitonematoide.

Os endoparasitas sedentários, como Meloidogyne, por exemplo, se fixam em uma célula e induzem modificações profundas no tecido vegetal. Com isso, surgem as chamadas “células gigantes”, que passam a funcionar como fonte permanente de alimento. A partir desse momento, o nematoide não se move mais. Como consequência, a galha se forma e se torna o resultado visível desse processo.

Já os endoparasitas migratórios, como Pratylenchus, apresentam outro comportamento. Primeiro, eles se alimentam da célula. Depois, destroem esse tecido e avançam para a próxima região da raiz. Assim, deixam um rastro de tecido necrótico e escurecido, conhecido como lesão radicular.

4. Reprodução

As fêmeas fixadas, então, passam a produzir ovos protegidos por uma massa gelatinosa. No caso do Heterodera, por outro lado, esses ovos ficam protegidos dentro dos cistos.

Além disso, uma única fêmea de Meloidogyne pode depositar entre 300 e 500 ovos. Por isso, quando as condições são favoráveis, como solo quente, umidade adequada e presença de hospedeiro suscetível, o ciclo se acelera.

Em geral, uma geração se completa em 25 a 30 dias. Como consequência, as populações crescem rapidamente e podem explodir de forma exponencial no solo.

5. Consequências sistêmicas

O dano nas raízes se manifesta sistemicamente:
– Absorção de água reduzida → murcha em dias quentes
– Absorção de nutrientes reduzida → clorose, deficiências nutricionais aparentes
– Raízes lesionadas → porta de entrada para fungos e bactérias patogênicas
– Menor desenvolvimento geral → plantas menores, floração e maturação irregulares, produtividade reduzida

Nematoide benéfico x nematoide fitoparasita

É importante deixar claro: a esmagadora maioria dos nematoides no solo é benéfica. Eles fazem parte da cadeia alimentar do solo — predando bactérias, fungos e outros microrganismos — e são fundamentais para a mineralização de nutrientes e a manutenção da saúde do ecossistema edáfico.

Um solo biologicamente saudável abriga populações diversas de nematoides benéficos, incluindo:

  • Bacterívoros: se alimentam de bactérias e liberam nitrogênio na forma mineral, disponível para as plantas.
  • Fungivoros: consomem fungos do solo, regulando populações de patógenos fúngicos.
  • Predadores: consomem outros nematoides, incluindo os fitoparasitas — são aliados naturais do produtor.
  • Onívoros: combinam hábitos alimentares variados, sendo indicadores de solo maduro e estável.

A proporção entre nematoides benéficos e fitoparasitas é, inclusive, um dos mais confiáveis indicadores de saúde do solo. Solos degradados, compactados e com baixa matéria orgânica têm populações de nematoides benéficos empobrecidas e, consequentemente, menor capacidade de suprimir os fitoparasitas.

Os principais nematoides fitoparasitas no Brasil

No Brasil, há uma diversidade significativa de espécies fitoparasitas. No entanto, algumas se destacam pelo impacto econômico e pela dificuldade de manejo no campo.

Meloidogyne spp., conhecido como nematoide das galhas, é considerado o gênero mais impactante na agricultura mundial. Isso porque forma galhas visíveis nas raízes e afeta culturas como soja, café, tomate, cenoura, goiaba e dezenas de outras espécies. No Brasil, principalmente, as espécies M. javanica, M. incognita e M. enterolobii estão entre as mais prevalentes.

Pratylenchus brachyurus, por sua vez, é conhecido como nematoide das lesões radiculares. Por ser polífago e altamente agressivo, causa lesões necróticas em culturas como soja, milho, algodão e cana-de-açúcar. Além disso, é o nematoide mais disseminado no Cerrado e, consequentemente, um dos maiores responsáveis por perdas em lavouras de soja no Brasil.

Já o Heterodera glycines, chamado de nematoide de cisto da soja, ou NCS, foi detectado pela primeira vez no Brasil em 1992. Atualmente, está presente em 109 municípios de 10 estados. Sua capacidade de sobreviver no solo por até 8 anos, em forma de cisto, torna esse parasita um dos mais difíceis de manejar na sojicultura brasileira.

Rotylenchulus reniformis (nematoide reniforme)
Impacta principalmente o algodão, mas também soja e cana-de-açúcar. Suas populações crescem rapidamente em condições de calor e solo seco — características do Cerrado brasileiro.

Por que o nematoide é tão difícil de controlar?

Três características biológicas tornam os nematoides os patógenos mais complexos da agricultura:

1. Invisibilidade e diagnóstico tardio
Por serem microscópicos e os sintomas inespecíficos, o diagnóstico geralmente ocorre quando a infestação já está estabelecida e as perdas, em curso. Produtores muitas vezes adubam e irrigam tentando resolver o que interpretam como deficiência nutricional — sem resultado, pois o problema está nas raízes.

2. Persistência extrema no solo
Além disso, mesmo sem hospedeiro, ovos e cistos podem permanecer viáveis por anos. Por isso, não existe um “reset” natural da área. Ou seja, quando o solo está infestado, ele continuará com pressão de nematoides por tempo indeterminado caso não haja manejo ativo.

3. Alta capacidade adaptativa
Outro ponto importante é a alta capacidade adaptativa desses organismos. Como os nematoides têm ciclo de geração curto, geralmente entre 25 e 30 dias em condições favoráveis, e apresentam alta variabilidade genética, eles conseguem se adaptar rapidamente. Assim, cultivares resistentes e produtos de controle químico podem perder eficiência com o tempo, favorecendo o surgimento de populações tolerantes em poucas safras.

Nematoide é visível a olho nu?

Não. Esta é uma das perguntas mais frequentes dos produtores. Os nematoides fitoparasitas são transparentes, de coloração esbranquiçada, e medem menos de 1 mm de comprimento. São fisicamente impossíveis de visualizar sem microscópio ou lupa de alta potência.

O que é possível enxergar no campo:

  • As galhas nas raízes causadas por Meloidogyne (estruturas visíveis, mas o nematoide em si, não)
  • Os cistos nas raízes causados por Heterodera glycines — pequenos pontos brancos ou amarelos visíveis com atenção
  • As lesões e escurecimentos nas raízes causados por Pratylenchus

Para confirmar a presença e identificar as espécies, é obrigatória a análise laboratorial de amostras de solo e raízes.

Quanto o nematoide prejudica sua lavoura?

Os números são impactantes e frequentemente subestimados:

  • R$ 65 bilhões em perdas anuais no agronegócio brasileiro (SBN, 2022)
  • R$ 37,7 bilhões só na cultura da soja
  • Queda de produtividade de 10% a 30% por safra nas lavouras afetadas
  • Em algumas regiões do Cerrado: 80% de perda documentada em lavouras de soja
  • Na prática: a cada 10 safras, uma é completamente perdida pelo impacto acumulado dos nematoides

O problema cresce a cada ano. A expansão da área plantada, a intensificação da monocultura e o aumento das temperaturas médias criam condições cada vez mais favoráveis à proliferação dos fitoparasitas.

A solução começa pelo solo

Compreender o que é nematoide é o primeiro passo. O segundo — e mais importante — é entender que o controle eficaz não começa com o produto que se aplica, mas com o ambiente que se constrói.

Solo biologicamente ativo, rico em microrganismos benéficos e com alta biodiversidade é naturalmente supressivo aos nematoides. É esse princípio que orienta toda a estratégia de solução da Solusolo.

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Link externo de autoridade:
Sociedade Brasileira de Nematologia

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