
Sim. O El Niño pode aumentar os danos causados por doenças de solo porque altera a distribuição das chuvas, eleva as temperaturas e aumenta a ocorrência de eventos climáticos extremos.
Entretanto, o fenômeno climático não cria fungos, bactérias ou outros patógenos dentro da área. Na verdade, esses organismos podem permanecer no solo, nos restos culturais, nas raízes infectadas e em estruturas de resistência formadas durante safras anteriores.
O que muda durante o El Niño são as condições encontradas por esses patógenos.
Em algumas regiões, chuvas intensas deixam o solo saturado. Em outras, o calor e a redução das precipitações provocam seca prolongada. Além disso, a mesma área pode enfrentar períodos de excesso de água seguidos por veranicos.
Consequentemente, as raízes sofrem estresse, o solo perde equilíbrio e algumas doenças encontram condições mais favoráveis para avançar.
A Organização Meteorológica Mundial informou, em julho de 2026, que o fortalecimento do El Niño aumenta o risco de temperaturas acima da média, chuvas intensas, períodos de seca e ondas de calor em diferentes regiões. Porém, os impactos variam conforme a localização, a época do ano e a intensidade do evento.
O El Niño não afeta todas as regiões da mesma forma
Um erro comum é imaginar que o El Niño sempre provoca apenas seca ou apenas excesso de chuva.
Na realidade, o fenômeno reorganiza os padrões de circulação atmosférica e modifica a distribuição das precipitações. Por isso, enquanto uma região enfrenta falta de água, outra pode registrar chuvas acima da média.
Além disso, os efeitos não se repetem de maneira idêntica em todos os eventos. A intensidade, a duração e o período de formação do fenômeno influenciam diretamente seus impactos.
De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, o El Niño desloca os padrões de chuva tropical e influencia o clima em diferentes partes do mundo. Portanto, o planejamento agrícola precisa considerar previsões regionais, histórico da área e condições locais do solo.
Excesso de água favorece doenças radiculares
Quando o volume de chuva supera a capacidade de infiltração e drenagem, os poros do solo ficam ocupados por água. Dessa forma, a entrada de oxigênio é reduzida e as raízes passam a respirar com dificuldade.
Como resultado, o crescimento radicular diminui. Além disso, tecidos enfraquecidos ficam mais vulneráveis à entrada de patógenos.
Solos encharcados também podem favorecer doenças provocadas por organismos associados à podridão de raízes e ao tombamento de plantas. Entre eles, destacam-se espécies de Pythium e Phytophthora, que encontram condições favoráveis em ambientes com umidade elevada.
Em um estudo com feijoeiro, a severidade de doenças radiculares aumentou conforme o período de saturação do solo foi prolongado. Portanto, não basta observar quanto choveu. Também é necessário avaliar por quanto tempo a água permaneceu acumulada na área.
Além disso, a enxurrada pode transportar partículas de solo, restos vegetais e estruturas de patógenos para outros pontos do talhão. Assim, problemas antes concentrados podem ser espalhados para áreas vizinhas.
Solo compactado deixa o problema ainda mais grave
A compactação reduz a quantidade e a continuidade dos poros responsáveis pela circulação de água e ar.
Por isso, quando uma chuva intensa ocorre, a infiltração é limitada. A água pode permanecer na superfície ou se acumular acima de uma camada compactada.
Consequentemente, as raízes crescem em um espaço menor, a oxigenação é reduzida e o ambiente se torna mais favorável ao aparecimento de podridões.
Além disso, raízes curtas exploram um volume menor de solo. Dessa forma, quando a chuva para e começa um veranico, a planta perde rapidamente o acesso à água.
Portanto, o mesmo solo pode enfrentar encharcamento durante a chuva e deficiência hídrica poucos dias depois.
Essa alternância aumenta o estresse da cultura e dificulta a recuperação do sistema radicular.
A seca também pode aumentar doenças de solo
Nem todas as doenças são favorecidas pelo excesso de umidade. Algumas podem causar danos maiores quando a planta enfrenta seca e temperaturas elevadas.
Durante o déficit hídrico, a planta reduz seu crescimento, fecha os estômatos e direciona energia para sobreviver. Ao mesmo tempo, a absorção de nutrientes é prejudicada e novas raízes são formadas mais lentamente.
Assim, a capacidade natural de defesa pode ser reduzida.
Além disso, fissuras, morte de raízes finas e danos provocados pelo calor podem facilitar a colonização dos tecidos por determinados patógenos.
Um estudo sobre podridão radicular da soja mostrou que a doença aumentou sob condições limitantes de umidade. Outro trabalho relacionou maior incidência e severidade de doenças causadas por Macrophomina phaseolina ao estresse por seca e às temperaturas elevadas.
Por isso, seca não significa ausência de doença. Pelo contrário, em algumas interações, o estresse hídrico torna a planta mais vulnerável.
Fusarium pode aproveitar plantas enfraquecidas
Espécies de Fusarium podem sobreviver no solo e em restos culturais por períodos prolongados. Entretanto, a presença do patógeno não significa que a doença sempre será severa.
Para que o dano aumente, é necessário que exista uma combinação entre patógeno, planta suscetível e ambiente favorável.
Nesse contexto, temperaturas elevadas, raízes lesionadas, baixa disponibilidade de água e desequilíbrio nutricional podem aumentar o estresse da cultura.
Consequentemente, sintomas como amarelecimento, murcha, escurecimento vascular e redução do crescimento podem ficar mais intensos.
Além disso, quando a planta já está enfraquecida pela seca ou pelo encharcamento, sua recuperação tende a ser mais lenta.
Rhizoctonia pode avançar em áreas com falhas no estabelecimento
A Rhizoctonia solani pode atacar sementes, plântulas, colo e raízes. Dessa forma, falhas de emergência, tombamento e lesões escurecidas podem aparecer no início do ciclo.
Chuvas fortes logo após o plantio podem deixar o solo saturado e reduzir a velocidade de emergência. Com isso, sementes e plântulas permanecem expostas aos patógenos por mais tempo.
Por outro lado, a formação de crostas superficiais também dificulta a saída das plantas.
Assim, mesmo que o patógeno já estivesse presente antes do plantio, as condições provocadas pelo clima podem ampliar os danos.
Ralstonia pode encontrar condições favoráveis no calor
A bactéria Ralstonia solanacearum causa murcha bacteriana e pode permanecer associada ao solo, à água, aos restos culturais e às plantas hospedeiras.
Em ambientes quentes e úmidos, a doença pode avançar rapidamente em culturas suscetíveis.
Além disso, a movimentação de água pode favorecer a dispersão da bactéria dentro da área. Ferimentos nas raízes, provocados por operações agrícolas, insetos ou nematoides, também podem facilitar a entrada do patógeno.
Por isso, períodos de temperaturas elevadas acompanhados por chuvas intensas merecem atenção especial em áreas com histórico de murcha bacteriana.
Nematoides podem aumentar o efeito das doenças
Os nematoides lesionam raízes, reduzem a absorção de água e nutrientes e abrem portas para a entrada de outros patógenos.
Dessa forma, uma planta que enfrenta seca, calor e ataque de nematoides pode apresentar maior vulnerabilidade a fungos e bactérias de solo.
Além disso, os sintomas podem ser confundidos. Amarelecimento, baixo crescimento, murcha e falhas em reboleiras podem indicar problemas climáticos, doenças radiculares, deficiência nutricional ou a combinação desses fatores.
Portanto, o diagnóstico não deve ser baseado apenas na parte aérea.
As raízes precisam ser observadas e, quando necessário, amostras de solo e tecido vegetal devem ser enviadas ao laboratório.
A microbiologia do solo também sente o clima irregular
O solo abriga microrganismos que competem com patógenos, participam da ciclagem de nutrientes e ajudam na formação de agregados.
Entretanto, longos períodos de seca reduzem a atividade de parte dessa comunidade. Da mesma forma, o encharcamento altera a disponibilidade de oxigênio e modifica o equilíbrio entre os grupos microbianos.
Assim, algumas funções importantes podem ser reduzidas temporariamente.
Estudos indicam que tanto a seca quanto o excesso de água podem alterar a supressividade natural do solo, porque microrganismos benéficos e patógenos respondem de formas diferentes às mudanças de umidade.
Por isso, a estabilidade biológica depende de um ambiente com boa estrutura, entrada de matéria orgânica, cobertura e raízes ativas.
Como reduzir o risco antes do problema aparecer?
O manejo começa antes da confirmação de um evento climático.
Primeiramente, o histórico da área deve ser analisado. Reboleiras, falhas de emergência, murchas, podridões e raízes lesionadas indicam pontos que precisam de atenção.
Além disso, a compactação deve ser identificada. A presença de camadas adensadas reduz a drenagem durante períodos chuvosos e limita o acesso à água durante os veranicos.
A cobertura do solo também exerce papel importante. A palhada reduz o impacto direto das gotas de chuva, diminui a erosão, protege contra o aquecimento excessivo e ajuda a conservar a umidade.
Da mesma forma, a rotação de culturas pode reduzir a multiplicação de determinados patógenos. Contudo, as espécies utilizadas precisam ser escolhidas conforme o problema presente na área.
Também é importante:
• Utilizar sementes e mudas sadias
• Evitar o trânsito de solo contaminado entre talhões
• Limpar máquinas, ferramentas e implementos
• Corrigir problemas de drenagem
• Manter cobertura vegetal
• Reduzir a compactação
• Monitorar raízes e reboleiras
• Realizar análises laboratoriais quando necessário
O clima revela os problemas que já estavam no solo
O El Niño pode aumentar os danos causados por doenças de solo. Porém, o tamanho do prejuízo depende das condições construídas antes da mudança climática.
Um solo compactado, com baixa cobertura, drenagem limitada, raízes pouco desenvolvidas e histórico de patógenos tende a responder pior aos extremos de chuva e temperatura.
Por outro lado, um solo estruturado infiltra melhor a água, mantém maior aeração, protege as raízes e reduz mudanças bruscas de umidade.
Portanto, o objetivo não deve ser apenas reagir quando a doença aparece. O manejo precisa preparar o solo para enfrentar períodos de excesso e de falta de água.
O El Niño testa a estrutura do solo antes de mostrar seus efeitos na parte aérea da planta.
Fontes:
World Meteorological Organization. El Niño is forecast to intensify, increasing likelihood of extreme weather. 3 de julho de 2026.
National Oceanic and Atmospheric Administration. Understanding El Niño & ENSO.
Li, Y. P. et al. Effect of Timing and Duration of Soil Saturation on Soilborne Diseases. Plant Disease, 2015.
Cruz, D. R. et al. Effects of Soil Conditions on Root Rot of Soybean. Phytopathology, 2020.
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