
Autor(a): Diro Hokari
Quando alguém encontra fungo na raiz, a primeira reação costuma ser pensar em doença.
Mas existe um problema nessa lógica.
A raiz saudável também está cercada de fungos.
Alguns ajudam a planta a encontrar nutrientes. Outros ocupam espaço próximo às raízes e dificultam o avanço de determinados patógenos. Existem ainda fungos capazes de parasitar outros fungos.
Por outro lado, espécies de Fusarium, Rhizoctonia e outros grupos podem infectar tecidos radiculares e causar podridões, necroses e redução do sistema radicular. A Embrapa descreve, por exemplo, Fusarium spp. e Rhizoctonia solani entre importantes agentes associados a doenças radiculares.
Então, se todos são fungos, por que alguns ajudam enquanto outros atacam?
Porque “fungo” diz muito pouco sobre o que aquele organismo realmente faz no solo.
Nem todo fungo no solo quer atacar a planta
Existem milhares de relações diferentes acontecendo abaixo da superfície.
Alguns fungos vivem principalmente decompondo resíduos vegetais.
Outros estabelecem associações com as raízes.
Também existem aqueles que competem com outros microrganismos.
E existem os fitopatógenos, capazes de utilizar tecidos vegetais durante o processo de infecção.
Portanto, encontrar fungos próximos à raiz é completamente normal.
Na verdade, plantas cultivadas convivem constantemente com fungos benéficos, neutros e potencialmente prejudiciais.
A diferença está na relação estabelecida entre fungo, planta e ambiente.
Alguns fungos recebem comida da planta e trabalham com ela
Talvez o exemplo mais conhecido seja o dos fungos micorrízicos.
Nesse relacionamento, a planta fornece compostos de carbono produzidos pela fotossíntese. Em troca, o fungo desenvolve uma rede de hifas que avança pelo solo e aumenta a área explorada pelo sistema radicular.
É quase como se a raiz ganhasse extensões microscópicas.
Consequentemente, nutrientes de baixa mobilidade, principalmente o fósforo, podem ser encontrados em regiões que a raiz sozinha teria mais dificuldade para explorar.
A Embrapa define a micorriza como uma associação mutualista entre determinados fungos e raízes. Nessa relação, a planta fornece carbono, enquanto o fungo participa da absorção de água e nutrientes minerais.
Por isso, o fungo está dentro ou junto da raiz, mas não está necessariamente causando doença.
Colonização e doença são coisas diferentes.
Alguns fungos podem ocupar o espaço antes do patógeno
A raiz possui espaço limitado.
Além disso, os compostos liberados por ela são disputados por uma enorme comunidade microbiana.
Por isso, quando microrganismos não patogênicos ocupam determinados nichos e utilizam recursos disponíveis, um patógeno pode encontrar maior dificuldade para se estabelecer.
Essa é uma das formas pelas quais a microbiota da rizosfera participa da proteção das plantas.
Microrganismos benéficos podem competir por espaço e recursos. Além disso, determinadas interações podem envolver produção de metabólitos e respostas de defesa da própria planta.
Entretanto, isso não significa que basta existir qualquer fungo benéfico para impedir uma doença.
O sistema é muito mais complexo.
População, espécie, isolado, ambiente, cultura e presença do patógeno interferem no resultado.
Existe fungo que ataca outro fungo
Aqui a história fica ainda mais interessante.
Alguns fungos conseguem interagir diretamente com outros fungos.
Trichoderma é um dos exemplos mais conhecidos.
Determinados isolados podem competir por recursos, produzir compostos com atividade antagonista e até parasitar estruturas de outros fungos.
Por isso, espécies desse gênero são estudadas e utilizadas em estratégias de supressão biológica de patógenos.
Uma publicação da Embrapa cita Trichoderma spp. entre os fungos habitantes do solo capazes de atuar contra Fusarium spp. e Rhizoctonia solani em diferentes culturas.
Portanto, abaixo da lavoura pode existir algo parecido com uma disputa microscópica.
Fungo contra fungo.
Bactéria contra fungo.
Microrganismos competindo por alimento.
Todos tentando ocupar a mesma região próxima à raiz.
Então o que faz um fungo patogênico?
O fungo patogênico estabelece outra relação com a planta.
Em vez de formar uma associação mutualista, ele consegue infectar tecidos e utilizar a planta durante seu ciclo.
Dependendo do patógeno, células podem ser danificadas, tecidos podem necrosar e partes do sistema radicular podem ser destruídas.
No caso das podridões radiculares associadas a espécies de Fusarium, por exemplo, podem surgir lesões nas raízes e, em condições severas, grande parte do sistema radicular pode ser comprometida. Consequentemente, a absorção de água e nutrientes diminui.
Rhizoctonia solani também pode provocar necroses e podridões radiculares em diferentes culturas.
Nesse caso, o fungo não está funcionando como parceiro.
Ele está utilizando a planta como hospedeira.
Mas ter o patógeno no solo significa ter doença?
Não necessariamente.
Esse é um ponto importante.
Um fungo potencialmente patogênico pode estar presente sem provocar uma epidemia naquele momento.
Para que a doença avance, vários fatores precisam coincidir.
A planta precisa ser suscetível.
O patógeno precisa estar presente em condições adequadas.
E o ambiente precisa favorecer a interação.
Umidade, temperatura, estrutura do solo, ferimentos radiculares, condição nutricional e outros estresses podem mudar completamente o resultado.
Por exemplo, a Embrapa relata que condições de alta umidade podem favorecer determinadas podridões radiculares e doenças causadas por fungos habitantes do solo.
Além disso, ferimentos nas raízes também podem facilitar algumas infecções. Em milho, a Embrapa cita que a infecção por Fusarium pode começar pelas raízes e ser favorecida por danos provocados por nematoides ou pragas subterrâneas.
Portanto:
presença do patógeno não é igual a doença inevitável.
A própria raiz ajuda a decidir quem vive ao redor dela
As raízes não ficam paradas esperando os microrganismos aparecerem.
Elas liberam açúcares, aminoácidos, ácidos orgânicos e diversos outros compostos.
Essas substâncias alimentam microrganismos e também modificam a comunidade que vive na rizosfera.
Consequentemente, plantas diferentes podem formar comunidades microbianas diferentes ao redor das raízes.
Além disso, a planta possui mecanismos capazes de reconhecer e responder de maneiras distintas a organismos benéficos e patogênicos. A composição do microbioma radicular é influenciada tanto pelas moléculas liberadas pelas raízes quanto pelas respostas de defesa da planta.
Ou seja, a raiz não vive isolada.
Ela está o tempo inteiro negociando, selecionando e reagindo ao mundo microscópico ao seu redor.
O ambiente também decide qual fungo ganha vantagem
Agora imagine um solo compactado, com raízes danificadas e períodos prolongados de excesso de água.
Compare com outro solo estruturado, com raízes crescendo em profundidade e maior diversidade biológica.
Mesmo que ambos possuam determinado patógeno, o resultado pode ser diferente.
Isso acontece porque fungos também respondem ao ambiente.
Por isso, pensar apenas em “matar o fungo ruim” simplifica demais a situação.
É preciso entender por que aquele organismo conseguiu ganhar espaço.
Havia hospedeiro?
Existiam ferimentos?
A umidade estava favorável?
A mesma cultura foi repetida diversas vezes?
A comunidade microbiana mudou?
A raiz estava sob estresse?
Cada resposta ajuda a explicar o que está acontecendo.
Solo saudável não significa solo sem fungos
Talvez esse seja o maior erro.
A ideia de um solo saudável como um ambiente praticamente esterilizado não faz sentido biologicamente.
Um solo funcional contém fungos.
Muitos fungos.
E parte deles desempenha funções importantes.
Micorrizas podem ampliar a exploração de nutrientes. Fungos decompositores participam da transformação de resíduos. Outros organismos interagem com patógenos e podem participar da supressão de doenças.
Ao mesmo tempo, fungos fitopatogênicos também podem fazer parte desse ambiente.
Portanto, a questão não é simplesmente:
“Tem fungo no meu solo?”
A pergunta muito mais interessante é:
“Que fungos estão ali e o que eles estão fazendo?”
Porque dois fungos podem estar separados por poucos milímetros na mesma raiz.
Um está tentando utilizar a planta.
O outro pode estar ajudando a impedir que ele consiga.
Veja também:
Como ativar a microbiologia do solo
Fonte:
Fontes e referências
Embrapa. Micorrizas. A publicação descreve a associação mutualista entre fungos micorrízicos e raízes, incluindo a transferência de nutrientes e água para as plantas.
Embrapa. Fungos do solo. O material aborda fungos fitopatogênicos como Fusarium e Rhizoctonia e a atuação de Trichoderma em estratégias de supressão biológica.
Embrapa. Doenças fúngicas do solo. Apresenta diferentes fungos associados a podridões radiculares e seus efeitos sobre o sistema radicular.
Frontiers in Plant Science. Modulation of the Root Microbiome by Plant Molecules. Revisão sobre a interação das raízes com microrganismos benéficos e patogênicos.
Frontiers in Microbiology. Rhizosphere Microbiome: The Emerging Barrier in Plant-Pathogen Interactions. Revisão sobre competição, antagonismo, micorrizas e proteção das raízes contra patógenos.