Degradação do solo: o que é e como impacta a produtividade

Autor(a): Diro Hokari

Palavra-chave principal: solo biologicamente cansado

Meta descrição: Existe solo biologicamente cansado? Entenda como manejo repetitivo, baixa diversidade e ausência de raízes vivas podem alterar a microbiologia do solo.

Um solo pode ter fósforo.

Pode ter potássio, receber chuva e até apresentar bons resultados em uma análise química.

Mesmo assim, alguma coisa parece não funcionar como deveria.

A raiz cresce pouco. A resposta à adubação diminui. Doenças aparecem com frequência e o sistema parece exigir cada vez mais intervenção para continuar produzindo.

Então surge a pergunta:

existe solo biologicamente cansado?

Tecnicamente, “solo biologicamente cansado” não é uma classificação científica estabelecida. Entretanto, a ciência descreve fenômenos muito próximos dessa ideia.

Termos como soil sickness, ou “cansaço do solo”, e problemas associados ao cultivo contínuo são utilizados para descrever situações em que mudanças físicas, químicas e principalmente biológicas começam a prejudicar o funcionamento daquele ambiente.

Portanto, o solo não fica cansado como uma pessoa.

Mas sua biologia pode perder diversidade, equilíbrio e capacidade funcional.

O solo não está vazio entre uma safra e outra

Debaixo de cada hectare existe uma comunidade enorme.

Bactérias, fungos, protozoários, nematoides de vida livre e diversos outros organismos disputam alimento e espaço constantemente.

Além disso, esses organismos participam de processos como decomposição da matéria orgânica, ciclagem de nutrientes e formação de agregados.

Por isso, o USDA define a saúde do solo como sua capacidade contínua de funcionar como um ecossistema vivo.

Essa definição muda a maneira de enxergar uma área agrícola.

Solo não é apenas argila, areia, nutrientes e água.

Existe uma comunidade vivendo ali.

E essa comunidade responde ao manejo.

Repetir a mesma cultura também repete o alimento da microbiologia

As plantas alimentam parte dos microrganismos através dos compostos liberados pelas raízes.

Entretanto, cada espécie vegetal libera uma mistura diferente de substâncias na rizosfera.

Assim, quando diferentes plantas ocupam uma área, diferentes fontes de carbono chegam ao solo.

Consequentemente, grupos distintos de microrganismos podem ser favorecidos.

Agora imagine o contrário.

A mesma cultura é plantada repetidamente.

As mesmas raízes crescem.

Compostos semelhantes são liberados.

Os mesmos resíduos retornam ao sistema.

Ao longo do tempo, essa repetição pode alterar a composição da comunidade microbiana.

Uma revisão publicada na Frontiers in Microbiology mostra que cultivos contínuos podem provocar mudanças na quantidade, riqueza e diversidade dos microrganismos do solo. Além disso, o processo pode favorecer alterações na relação entre organismos associados às plantas e grupos ligados a doenças.

Isso não significa que toda monocultura automaticamente destrói a microbiologia.

Porém, significa que repetir a mesma planta também exerce uma pressão de seleção abaixo do solo.

Talvez o solo esteja alimentando sempre os mesmos moradores

Imagine um restaurante que serve exatamente o mesmo prato durante anos.

Naturalmente, alguns clientes serão favorecidos.

Outros encontrarão menos condições para permanecer.

Algo semelhante pode acontecer na rizosfera.

Quando o tipo de planta muda, o alimento liberado pelas raízes também muda. Portanto, aumentar a diversidade vegetal ajuda a aumentar a diversidade de ambientes e recursos disponíveis para os organismos do solo.

O USDA utiliza justamente esse princípio ao recomendar maior diversidade de plantas para favorecer uma comunidade biológica mais diversa.

Assim, o problema não é simplesmente ter “pouca bactéria”.

É possível existir uma enorme quantidade de microrganismos e, ainda assim, determinadas funções biológicas estarem enfraquecidas.

Quantidade e equilíbrio não são a mesma coisa.

Um solo biologicamente cansado pode continuar produzindo

Essa é uma das partes mais perigosas.

O solo não necessariamente para de produzir.

O sistema pode continuar entregando produtividade porque fertilizantes, defensivos, irrigação e outras ferramentas compensam parte das limitações existentes.

Entretanto, a quantidade de intervenção necessária pode aumentar.

Por isso, analisar apenas produtividade pode esconder mudanças acontecendo abaixo da superfície.

O próprio USDA ressalta que a saúde do solo não pode ser determinada por apenas um indicador. Características físicas, químicas e biológicas precisam ser analisadas em conjunto.

Então uma lavoura produtiva não necessariamente significa que todas as funções biológicas daquele solo estejam trabalhando no máximo potencial.

O pousio também pode deixar a microbiologia sem sua fonte mais fácil de alimento

Existe outro detalhe importante.

Microrganismos precisam de carbono.

E uma das fontes mais acessíveis de carbono vem justamente das raízes vivas.

Enquanto a planta realiza fotossíntese, uma parcela dos compostos produzidos chega ao sistema radicular e parte é liberada na rizosfera.

Dessa forma, os microrganismos recebem uma fonte contínua de energia.

Quando o solo permanece durante longos períodos sem plantas vivas, essa entrada é reduzida.

Os organismos não desaparecem. Porém, a atividade de determinados grupos pode diminuir e a comunidade passa a depender mais de resíduos vegetais e matéria orgânica existente.

Por isso, manter raízes vivas pelo maior período possível é um dos princípios utilizados pelo USDA para favorecer a saúde do solo.

A planta colhida sai da lavoura.

Mas a microbiologia continua precisando comer.

Distúrbio demais também cobra uma conta

O ambiente físico interfere diretamente na comunidade biológica.

Revolvimento intenso, compactação, ausência de cobertura e grandes oscilações de temperatura e umidade modificam o habitat onde os organismos vivem.

Além disso, práticas inadequadas podem alterar relações entre fungos, bactérias e raízes.

Segundo o USDA, perturbações físicas intensas reduzem habitat, afetam a estrutura e podem prejudicar a rede alimentar do solo.

Portanto, não adianta pensar na microbiologia separadamente da estrutura.

Uma bactéria não vive em uma tabela de análise.

Ela precisa de água.

Precisa de carbono, espaço e encontrar condições para permanecer ativa.

E quando os organismos associados às doenças ganham espaço?

Um dos fenômenos relacionados ao chamado “cansaço do solo” é a alteração da comunidade microbiana após sucessivos cultivos.

Em determinados sistemas, o cultivo contínuo pode favorecer o acúmulo de organismos associados a doenças, enquanto a estrutura da comunidade microbiana também é alterada.

Isso ajuda a explicar por que algumas áreas parecem desenvolver problemas recorrentes ao longo dos anos.

Entretanto, é importante não simplificar.

Encontrar um patógeno não significa automaticamente ter doença.

A planta hospedeira, o ambiente, a população do organismo e as interações com o restante da microbiota também influenciam o resultado.

Por isso, um solo biologicamente equilibrado não significa um solo sem organismos prejudiciais.

Significa um ambiente onde eles dividem espaço com milhares de outros organismos.

Como saber se um solo está biologicamente degradado?

Não existe um teste chamado “exame de cansaço do solo”.

Porém, existem indicadores que ajudam a entender seu funcionamento biológico.

Podem ser avaliados fatores como biomassa microbiana, respiração do solo, atividade de determinadas enzimas, carbono orgânico e composição das comunidades microbianas.

Além disso, esses dados precisam ser interpretados junto com informações físicas e químicas.

Estrutura, compactação, infiltração, matéria orgânica, pH, histórico da área, rotação e desenvolvimento radicular contam partes diferentes da mesma história.

Portanto, observar apenas uma variável pode levar a conclusões erradas.

Como recuperar um solo biologicamente cansado?

A resposta provavelmente não estará em uma única aplicação.

Porque o problema também não surgiu em uma única safra.

A construção de um ambiente biologicamente mais funcional envolve aumentar a diversidade vegetal, manter raízes vivas por mais tempo, preservar cobertura sobre o solo e diminuir perturbações desnecessárias.

Além disso, problemas físicos e químicos precisam ser diagnosticados e manejados.

O USDA reúne esses princípios em quatro pontos centrais: maximizar raízes vivas, reduzir distúrbios, manter cobertura e aumentar a biodiversidade.

Portanto, recuperar a biologia significa recuperar também o ambiente onde ela precisa viver.

Talvez o solo não esteja pedindo mais. Esteja pedindo variedade

Essa é a reflexão principal.

Durante anos, diante de uma queda de desempenho, uma reação comum foi adicionar alguma coisa.

Mais fertilizante, correção e uma intervenção.

Entretanto, em determinados casos, o problema pode não ser apenas aquilo que está faltando.

Pode ser aquilo que está sendo repetido.

A mesma cultura.

As mesmas raízes.

Os mesmos períodos sem plantas.

Os mesmos distúrbios.

Safra após safra.

Por isso, falar em solo biologicamente cansado pode ser útil, desde que entendamos corretamente a expressão.

O solo não ficou com preguiça.

Nós podemos ter simplificado demais um ecossistema que depende justamente de diversidade.

Leia também

Para aprofundar esse assunto, veja o conteúdo Como ativar a microbiologia do solo, que explica por que introduzir microrganismos e criar condições para que eles funcionem são coisas diferentes.

Como ativar a microbiologia do solo

Fontes e referências

Chen et al. Evolutions and Managements of Soil Microbial Community Structure Drove by Continuous Cropping. Frontiers in Microbiology, 2022. Revisão sobre alterações da comunidade microbiana provocadas pelo cultivo contínuo.

USDA Natural Resources Conservation Service. Soil Health. Definição de saúde do solo e princípios relacionados à diversidade, cobertura, raízes vivas e redução de distúrbios.

USDA Natural Resources Conservation Service. Soil Health Management. Discussão sobre diversidade vegetal, alimentação da microbiota pelas raízes e perturbações do habitat microbiano.

USDA Natural Resources Conservation Service. Soil Health Assessment. Orientações sobre o uso conjunto de indicadores físicos, químicos e biológicos para avaliar o funcionamento do solo.

Alami et al. Continuous Cropping Changes the Composition and Diversity of Bacterial Communities: A Meta Analysis in Nine Different Fields with Different Plant Cultivation. Agriculture, 2021.

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