Tipos de Nematoide na Soja: Conheça os 4 Principais e Como Manejar Cada Um

Fitonematoides: conheça os 4 principais gêneros

Autor: Diro Hokari

A soja é a cultura brasileira mais afetada por nematoides fitoparasitas. Além disso, com R$ 37,7 bilhões em perdas por safra, segundo a SBN, em 2022, o tema se torna urgente para qualquer produtor que leva a sério a rentabilidade da sua lavoura. No entanto, o problema é que não existe apenas “o nematoide da soja”. Na prática, existem múltiplas espécies, cada uma com biologia diferente, sintomas específicos e necessidade de estratégias de manejo distintas.

Por isso, neste artigo, você vai conhecer em profundidade os 4 principais tipos de nematoide que atacam a soja no Brasil. Ao longo do conteúdo, serão apresentados a biologia de cada espécie, as formas de identificação no campo, o impacto econômico específico e, principalmente, o que funciona e o que não funciona no controle de cada uma.

Por que a soja é tão vulnerável aos nematoides?

Alguns fatores tornam a soja particularmente suscetível:

Monocultura e sucessão com hospedeiras: em primeiro lugar, a soja frequentemente sucede o milho. No entanto, o principal nematoide da soja no Cerrado, Pratylenchus brachyurus, também parasita o milho. Portanto, a rotação mais comum não interrompe o ciclo do parasita.

Expansão da área cultivada: além disso, a fronteira agrícola avança sobre solos que nunca foram cultivados. Nesses ambientes, as populações de nematoides benéficos e antagonistas ainda não estão bem estabelecidas. Como consequência, o solo pode se tornar mais favorável aos fitoparasitas.

Temperatura do solo: outro fator importante é a temperatura. O Cerrado, onde está concentrada a maior parte da produção de soja, apresenta temperaturas de solo entre 25°C e 35°C durante o ciclo da cultura. Essa faixa, por sua vez, favorece a multiplicação da maioria das espécies fitoparasitas.

Histórico de negligência: por fim, durante décadas, o nematoide recebeu menos atenção do que pragas aéreas, como a lagarta-da-soja, ou doenças, como a ferrugem asiática. Dessa forma, o investimento tardio em diagnóstico e manejo permitiu que as populações se estabelecessem de forma ampla nas principais regiões produtoras.

Os 4 principais tipos de nematoide na soja brasileira

1. Pratylenchus brachyurus — nematoide das lesões radiculares

Pratylenchus brachyurus é um nematoide endoparasita migratório penetra nas raízes, se alimenta, destrói as células, migra para a próxima raiz, e assim por diante, deixando um rastro de destruição. É o nematoide mais disseminado nas lavouras de soja do Brasil central.

Biologia:


Em primeiro lugar, o Pratylenchus brachyurus apresenta corpo alongado, com cerca de 0,45 a 0,70 mm de comprimento. Além disso, é um nematoide polífago, ou seja, consegue infectar diferentes culturas, como soja, milho, algodão, cana, feijão e pastagens.

Outro ponto importante é o ciclo de vida, que ocorre em cerca de 25 a 30 dias quando a temperatura fica entre 25°C e 30°C. Por fim, esse nematoide também sobrevive bem em restos de raízes no solo. Por isso, a palhada da safra anterior pode funcionar como reservatório para a próxima cultura.

Sintomas específicos:


No campo, os primeiros sinais costumam aparecer nas raízes laterais, com lesões escuras e necróticas, parecidas com manchas marrons ou negras distribuídas. Com o avanço da infestação, o sistema radicular perde função de forma progressiva ao longo do ciclo.

Além disso, em áreas com alta pressão, as raízes podem apresentar aspecto “corroído” e coloração escura mais uniforme. Na parte aérea, por consequência, surgem reboleiras com plantas cloróticas, nanismo moderado e menor produção de vagens.

Impacto econômico:
Segundo dados da Embrapa, no Mato Grosso, podem ocorrer perdas de 60 kg de soja por hectare para cada 82 Pratylenchus por grama de raiz. Além disso, em áreas severamente infestadas, as perdas podem chegar a 20% a 40% da produtividade.

Desafio de manejo:
O grande desafio está na polifagia do P. brachyurus. Isso significa que muitas culturas usadas em rotação com a soja, como milho e sorgo, também podem hospedar o nematoide. Portanto, a rotação mais comum nem sempre reduz a população no solo.

Nesse cenário, a crotalária, principalmente Crotalaria spectabilis, e o braquiarão aparecem como melhores opções de não hospedeiras para ajudar na redução das populações.

Estratégia de controle:
Para reduzir a pressão do Pratylenchus brachyurus, o manejo precisa ser integrado. Entre as principais estratégias, estão:

Evitar milho em sucessão imediata em áreas com alta população de Pratylenchus

Rotação com crotalária, preferencialmente Crotalaria spectabilis, por pelo menos uma safra

Tratamento de sementes com Bacillus subtilis, especialmente para reduzir a infecção nas semanas críticas

2. Meloidogyne javanica e M. incognita — nematoide das galhas

As espécies de Meloidogyne são endoparasitas sedentários: uma vez que a larva J2 penetra na raiz e induz a formação de células gigantes, ela nunca mais se move. A fêmea cresce, produz ovos (300–500 por postura) e o ciclo se reinicia. As galhas — inchaços visíveis nas raízes — são o resultado dessa relação de parasitismo fixo.

Biologia:
M. javanica e M. incognita são as espécies mais prevalentes na soja brasileira
– Uma fêmea pode produzir de 300 a 500 ovos protegidos em massa gelatinosa
– Ciclo de vida: 20–30 dias em condições favoráveis
– Hospedeiro altamente diversificado — afeta mais de 2.000 espécies de plantas

Sintomas específicos:
Galhas visíveis nas raízes laterais — o sinal mais característico e definitivo
– As galhas variam de pequenos nódulos de 1–2 mm a estruturas de 1–2 cm
– Atenção: não confundir com nódulos de fixação biológica de N² (que são rosados internamente)
– Parte aérea: reboleiras com plantas amareladas, nanismo, menor número de vagens
– Em infestações severas: sistema radicular praticamente sem raízes finas — só a raiz principal permanece

Impacto econômico:
Perdas de 20–30% em lavouras de soja com alta pressão de Meloidogyne. Em culturas como cenoura, goiaba e pimenta-do-reino, as perdas podem atingir 30–50% da produção.

Desafio de manejo:
O amplo espectro de hospedeiros dificulta a rotação. Além disso, M. enterolobii — espécie mais agressiva — é capaz de superar a resistência de diversas cultivares comercialmente disponíveis, tornando essa ferramenta menos confiável para essa espécie específica.

Estratégia de controle:
– Rotação com não hospedeiras: gramíneas (milheto, braquiária) para M. javanica e M. incognita
– Bionematicida com Purpureocillium lilacinum no tratamento de sementes — parasita ovos e fêmeas
Pochonia chlamydosporia no solo — coloniza massas de ovos e reduz eclosão
– Cultivares com resistência específica (verificar raça presente na área)

3. Heterodera glycines nematoide de cisto da soja (NCS)

O mais difícil de manejar e o que exige comprometimento de longo prazo

Entre os principais tipos de nematoide na soja, Heterodera glycines se destaca por ser biologicamente único. Isso acontece porque sua principal estratégia de sobrevivência é a formação do cisto, que é o corpo endurecido da fêmea morta. Esse cisto pode proteger até 300 ovos viáveis por até 8 anos no solo, mesmo sem a presença de uma planta hospedeira. Por isso, qualquer estratégia de curto prazo tende a ser insuficiente para um controle realmente eficaz.

Biologia:


Em primeiro lugar, o Heterodera glycines foi detectado no Brasil em 1992, em Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul. Atualmente, está presente em 109 municípios de 10 estados. Além disso, já foram identificadas 11 raças no Brasil, de um total superior a 15 no mundo.

Outro ponto importante é sua alta variabilidade genética. Com isso, o nematoide pode selecionar raças capazes de superar cultivares resistentes em apenas 3 a 5 safras. Portanto, usar sempre a mesma cultivar resistente pode perder eficiência com o tempo.

Sintomas específicos:


No campo, um dos sinais mais importantes é a presença de cistos visíveis nas raízes. Eles aparecem como pontos brancos ou amarelos aderidos, diferentes dos nódulos de fixação biológica de nitrogênio.

Além disso, na parte aérea, é comum observar reboleiras com amarelamento difuso e plantas com aparência parecida com deficiência nutricional. Com o avanço da infestação, as raízes laterais deixam de se desenvolver bem e podem apresentar aspecto “cortado” próximo à superfície.

Em infestações severas, por consequência, as plantas podem atingir apenas 30% a 50% da altura normal e perder o potencial de produção econômica.

Impacto econômico:
Em áreas fortemente infestadas por Heterodera glycines, a soja pode se tornar economicamente inviável sem manejo intensivo. Além disso, o custo para reformar a área e implementar um manejo de longo prazo costuma ser significativo.

Desafio de manejo:
A persistência dos cistos no solo torna o manejo de longo prazo obrigatório. Áreas infestadas devem ser tratadas como tal por pelo menos 5–8 anos, mesmo que a soja seja retirada por várias safras. A rotação de cultivares resistentes com diferentes genes de resistência é essencial para evitar seleção de raças virulentas.

Estratégia de controle (necessariamente integrada e de longo prazo):
– Identificação da raça presente (análise laboratorial específica) antes de escolher cultivares resistentes
– Rotação obrigatória com milho, sorgo ou outros não hospedeiros específicos para NCS
– Rotação de cultivares resistentes com diferentes genes (para evitar seleção de raças)
– Condicionador de solo biológico

4. Rotylenchulus reniformis — nematoide reniforme

O especialista em solos quentes e secos do Cerrado

Rotylenchulus reniformis é semi-sedentário: a fêmea jovem penetra na raiz, fixa uma extremidade no tecido vascular e mantém a outra fora da raiz, em posição de alimentação característica (em forma de “rins” — daí o nome reniforme). Reproduz-se externamente, depositando ovos em massa gelatinosa fora da raiz.

Biologia:
– Prevalente em solos arenosos, quentes e com déficit hídrico frequente
– Alta tolerância à seca — pode entrar em dormência e reativar com a umidade
– Afeta principalmente algodão, mas também soja, cana e batata-doce
– Ciclo de 21–28 dias em condições favoráveis

Sintomas específicos:
– Retardo generalizado de crescimento, mais pronunciado em áreas de solo arenoso
– Raízes com massa gelatinosa aderida (massas de ovos externas, visíveis com lupa)
– Menor resposta à adubação, especialmente em K e Ca
– Distribuição em manchas ligadas à textura do solo (mais intensa em áreas mais arenosas)

Estratégia de controle:
– Rotação com culturas não hospedeiras — milho, sorgo, crotalária
– Melhoria da estrutura do solo (condicionador de solo biológico) para reduzir as condições favoráveis ao reniforme
– Controle biológico com B. subtilis e condicionador biológico

Infestação mista: o cenário mais comum — e o mais desafiador

Nas lavouras do Cerrado, entender os Tipos de Nematoide na Soja é essencial, porque a infestação mista, com múltiplas espécies presentes ao mesmo tempo, é a regra, não a exceção. Diagnósticos conduzidos pela Embrapa em áreas do Mato Grosso e Goiás identificam frequentemente Pratylenchus brachyurus e Meloidogyne juntos. Além disso, em algumas áreas, três espécies podem coexistir no mesmo talhão: Pratylenchus, Meloidogyne e Heterodera glycines.

A infestação mista exige estratégias de manejo que sejam eficazes para múltiplas espécies simultaneamente — o que torna o controle biológico e o condicionamento do solo biologicamente ainda mais importantes: ao invés de uma solução específica para cada espécie, restaura-se o ecossistema que suprime naturalmente todas elas.

Resumo: o que funciona para cada espécie

EstratégiaPratylenchusMeloidogyneHeteroderaRotylenchulus
Crotalária✅ Excelente✅ Boa✅ Boa✅ Boa
Cultivar resistente❌ Não disponível⚠️ Parcial✅ Disponível❌ Não disponível
Bacillus subtilis✅ Eficaz✅ Eficaz✅ Eficaz✅ Eficaz
P. lilacinum⚠️ Moderado✅ Eficaz✅ Eficaz✅ Eficaz
Pochonia chlamydosporia⚠️ Moderado✅ Eficaz✅ Eficaz⚠️ Moderado
Condicionador de solo biológico✅ Médio prazo✅ Médio prazo✅ Médio prazo✅ Médio prazo

O próximo passo para a sua lavoura de soja

Saber qual nematoide está presente na sua área é a base de qualquer decisão de manejo eficaz. Sem diagnóstico preciso, qualquer investimento em controle é um tiro no escuro.

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Link externo de autoridade:
Embrapa Soja — Circular Técnica: Nematoides em Soja

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