
Autor(a): Rodrigo
Calor no verão é esperado. Contudo, calor extremo é outra conversa: ele muda a forma como a cana “gasta energia”, como ela abre e fecha estômatos e, principalmente, como ela consome água para manter o dossel funcionando. Assim, duas áreas com a mesma variedade podem responder de maneiras bem diferentes, porque o que define a perda não é só a máxima do dia, mas a sequência de dias quentes, a umidade do ar, o vento e a água disponível no solo.
A cana é uma espécie C4 e, por isso, lida melhor com temperaturas mais altas do que muitas culturas. Ainda assim, isso não significa imunidade. Na prática, ela tem um “ponto bom” e, depois dele, o ganho vira custo.
1) A cana gosta de calor… até certo ponto
Em condições normais, temperaturas elevadas sustentam crescimento vigoroso. Inclusive, valores em torno de 30–35 °C são citados como base para crescimento ótimo da cana.
Porém, quando o calor extremo vem junto com ar mais seco (maior demanda atmosférica) e solo secando rápido, o sistema muda de marcha. Nesse cenário, folhas podem enrolar e murchar, e o estresse passa a ser fisiológico, não apenas “visual”.
Além disso, exposições a temperaturas muito altas podem reduzir a eficiência fotossintética; em estudos, 40 °C por 24 horas e noites quentes principalmente com umidade baixa já é usado como condição para avaliar estresse térmico em cana pela queda de eficiência do fotossistema.
2) O que muda no crescimento da cana durante calor extremo
A) Fotossíntese cai antes de a planta “parar”
No calor extremo, a cana tenta manter a temperatura da folha mais baixa. Para isso, ela depende de transpiração. No entanto, quando a demanda do ar (VPD) sobe e/ou a água no solo começa a limitar, os estômatos tendem a fechar mais cedo no dia. Consequentemente, entra menos CO₂, e a fotossíntese perde ritmo, mesmo com sol sobrando a planta gasta mais energia respirando do que produzindo.
Ao mesmo tempo, a respiração é intensificada com temperatura mais alta, e parte do carbono que seria convertido em biomassa acaba sendo consumido como “manutenção” metabólica. Assim, o crescimento do colmo e a expansão foliar podem ser desacelerados, principalmente em ondas de calor prolongadas.
B) Perfilhamento e expansão foliar ficam mais instáveis
Quando a planta passa por picos térmicos repetidos, o estabelecimento de perfilhos e a manutenção de área foliar ficam mais sensíveis ao balanço hídrico. Além disso, o dossel tende a “se defender” reduzindo a perda de água — e essa defesa costuma aparecer como enrolamento de folhas no período mais quente do dia evitando perder água e reduz a transpiração.
Com isso, mesmo que a lavoura “recupere” à noite, o número de horas úteis de fotossíntese é encurtado. E, como resultado, o ganho diário em biomassa pode ser menor do que o esperado para um verão ensolarado.
C) Acúmulo de sacarose pode ser prejudicado
Quando o calor extremo coincide com fases críticas, a qualidade também entra na conta. Em trabalhos com cana sob choque térmico, foi relatada redução de enzimas do metabolismo da sacarose, com queda de teor de sacarose e de recuperação de açúcar em cultivares avaliadas.
Isso ajuda a explicar um padrão comum: o canavial mantém aparência “verde”, mas entrega menos em qualidade quando o estresse térmico foi forte e frequente a planta não consegue apresentar uma boa qualidade.
3) O que muda no consumo de água: demanda sobe, mas a planta pode “limitar” a perda
A) A evapotranspiração (ET) é puxada pelo clima — e o verão acelera tudo
O consumo de água da cana é, em grande parte, evapotranspiração (solo + planta). Em termos sazonais, a FAO indica requerimentos na ordem de 1500 a 2500 mm ao longo do ciclo, dependendo do clima.
Em escala diária, no campo, há grande variação por fase e ambiente. Por exemplo, um estudo em condições tropicais relatou consumo de 2,6 mm/dia no início e até 6,38 mm/dia em fase mais adiantada, com média em torno de 4,3 mm/dia no ciclo avaliado.
Além disso, revisões técnicas apontam que picos diários podem ser ainda maiores (relatos de 6–15 mm/dia), dependendo da região e da demanda atmosférica.
B) Em calor extremo, a “necessidade” do ambiente cresce mais rápido do que a “capacidade” da planta
Aqui está o detalhe que confunde: quando o ar fica muito seco e quente, a demanda por transpiração aumenta. Entretanto, a cana pode reduzir a condutância estomática para evitar colapso hídrico. Ou seja, a demanda climática sobe, mas a transpiração real diminui se faltar água no solo ou se a planta entrar em modo de proteção.
Pesquisadores observaram esse comportamento em medições com cana no Brasil: a evapotranspiração mostrou limitação em condições de ETo mais alta, com queda do Kc à medida que a demanda atmosférica aumentou.
Na prática, isso significa duas coisas ao mesmo tempo:
- Se há água disponível, o canavial transpira muito e consome mais água para resfriar as folhas.
- Se a água começa a faltar, a planta “fecha a torneira”, a folha esquenta, e a perda passa a ser por queda de fotossíntese e estresse, não apenas por falta de milímetros.
4) O que observar no canavial durante onda de calor
Além do termômetro, vale observar sinais que antecipam perda:
- Enrolamento de folhas no meio do dia (se vira rotina, o estresse está constante).
- Aquecimento do dossel (folha “quente” ao toque e sensação de canavial mais “seco”).
- Solo secando mais rápido do que o normal, com trincas e crosta superficial em áreas expostas.
- Desuniformidade de vigor em reboleiras (normalmente ligadas a compactação, baixa infiltração ou menor profundidade efetiva).
- Redução de crescimento perceptível mesmo com boa luminosidade (a planta está economizando).
- Altura de colmo(menor)
Enquanto isso, áreas com palhada bem distribuída e melhor estrutura tendem a amortecer o pico térmico, porque a evaporação do solo é reduzida e a infiltração costuma ser mais eficiente.
5) O que fazer com essa informação: decisões práticas
- Gerencie água por demanda, não por calendário. Em calor extremo, a janela “normal” deixa de ser referência. Além disso, monitorar umidade (mesmo que com método simples) é mais confiável do que olhar apenas chuva acumulada.
- Proteja o solo para reduzir evaporação. Onde o solo fica descoberto, a água é perdida mais cedo e o estresse é antecipado.
- Priorize talhões com limitação física. Compactação e baixa infiltração transformam onda de calor em estresse severo mais rápido.
- Ajuste expectativa por fase. Em fase de crescimento intenso, a penalidade por estresse térmico/hídrico tende a ser maior; já em fases mais próximas de maturação, o impacto pode migrar para qualidade, dependendo do cenário.
- Manter palhada no solo, para proteção de raízes e menor temperatura no solo.
Conclusão
O calor extremo muda a cana por dentro antes de mudar por fora. Primeiro, a transpiração funciona como “ar-condicionado” da folha; em seguida, se o solo não acompanha, a planta fecha os estômatos, a fotossíntese perde horas úteis e o crescimento desacelera. Além disso, quando o estresse térmico se repete, ele pode afetar o metabolismo ligado à sacarose e comprometer a qualidade.
O calor extremo não mata a cana imediatamente, porém rouba produtividade dia após dia. Por isso, no verão, o risco real não está apenas na máxima do dia, e sim na combinação de sequência de calor + ar seco + água disponível + estrutura do solo. Quando o produtor lê esses fatores em conjunto, o canavial deixa de “surpreender” e passa a receber manejo com antecedência.
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